Se a vida fosse, simplesmente como deveria ser, sem dar bola para como ela é de fato… Para começar meu “namorado” não seria um futuro idiota, não estaria a quilometros de distância e distante há 05 meses. Ele estaria aqui comigo, e eu provavelmente não estaria aqui nesse computador escrevendo, mas sim aproveitando meu tempo de maneira muito melhor.
Se a vida fosse, simplesmente como deveria ser, sem dar bola para como ela é de fato… Eu, nesses meus 26 anos, já teria terminado a faculdade há 04 anos atrás. Teria feito um segundo grau normal de 03 anos, terminado o colégio aos 18, entrado na faculdade no ano seguinte e me formado aos 22. Teria passado um ano fazendo intercâmbio no exterior, voltado no ano seguinte e entrado em uma multinacional, e assim, aos 26, além de ter meu próprio carro, eu estaria dando entrada no meu próprio apartamento… pequeno para começar, dois quartos, decorado ao meu gosto, com móveis chegando aos poucos e namorado visitando constantemente – se não, já parte integrante do pacote.
Se a vida fosse, simplesmente como deveria ser, sem dar bola para como ela é de fato… Meu pai teria se sentido libertado ao ser demitido. Teria passado o tempo caminhando mais, pensando em mais coisas novas e deixado de lado o cigarro e a bebida. Teria se exercitado mais, emagrecido, começado um negócio de instalação de Home Theaters, e estaria animado. Não teria falecido nos meus braços pedindo por ar.
Se a vida fosse, simplesmente como deveria ser, sem dar bola para como ela é de fato… Minha vó teria se recuperado de se divorciar em plena década de 1970. Teria dado um jeito de esquecer meu avô, não deixar que esse sentimento a consumisse, e não acabaria com uma doença esclerótica, relembrando fantasmas deixados de lado e não resolvidos. Não teria morrido após o próprio filho, não teria ido ao enterro dele sem nem saber onde estava.
Se a vida fosse, simplesmente como deveria ser, sem dar bola para como ela é de fato… Em casa seríamos todos melhores, e não centrais de mágoas adormecidas esperando atrito para explodir. Conseguiríamos resolver o fato de que essa casa parece pequena, independente de quantas pessoas moram nela. Saberíamos dividir as coisas, e não precisar necessariamente ficar testando nossos limites a todo momento.
Se a vida fosse, simplesmente como deveria ser, sem dar bola para como ela é de fato… Talvez eu conseguisse olhar as coisas com esperança e satisfação, dizer que estamos caminhando, que as coisas estão crescendo e melhorando… e não que simplesmente eu passo o dia tentando imaginar quando irá chegar ao fim o limite de todas as coisas conhecidas, dadas como certas, dadas como estáveis. Quando será dito o último eu te amo? Quando será trocado o último beijo? Quando chegaremos ao último dia e trabalho quando você participa da destruição de uma entidade? Quando o que você costumava chamar de família parecem cada vez mais distantes e estranhos? Quando a mágoa matará o carinho até o ponto em que não há mais volta? Quando todos os amigos não significarão mais nada? Quando será que tudo que irá restar é o que não foi?
Fogo interior. Quando você não está queimando por dentro, está se apagando.
Mas a questão é: diante de tudo o que acontece, como saber se estamos jogando gasolina, ou se aos poucos estamos passando com aviões tanque pela floresta, apagando o fogo e deixando só as cinzas?









