O MUNDO MUDOU… OU FUI EU.



Existe uma música do Kid Abelha, Educação Sentimental (e minha eterna confusão de saber se estou falando de Educação Sentimental 1 ou 2), que me faz pensar, logo depois de pensar na validade de crianças crescerem escutando músicas de adulto mais do que infantis, em algumas particularidades de sua letra:

“A vida que me ensinaram como uma vida normal,
Tinha trabalho, dinheiro, família, filhos e tal…
Era tudo tão perfeito – se tudo fosse só isso.
Mas isso é menos do que tudo, é menos do que eu preciso!”

A música é do começo da década de 1980. Estava ficando claro que para as mulheres que o papel de eterna dona de casa, já não servia mais… No entanto, até esse tipo de discussão envelheceu.

Pensando em retrospectiva, vejo que boa parte da minha educação – não por mal – foi dada pela televisão. E seqüências de sessão da tarde, após sessão da tarde, quando você tem até uns 06 anos de idade, podem fazer um extremo mal. E eu nem sou da época de todos os cães jogadores de basquete, ou dos gorilas espertos (tudo bem, tinha o Boomer, e os filmes em que o Clint Estwood contracenava com um macaco), estou falando de seqüências de filmes da década de1940, 1950… mais seriados como “A Feiticeira” e “Gennie é um Gênio” – francamente, atualmente eu acho difícil determinar quem fez mais mal para mim: as gorduras saturadas, ou “Gennie é um Gênio”.

Veja bem, eu não fui criada em um contexto em que as mulheres ficam em casa eternamente… minha mãe trabalhava, minha tia trabalhava, minha vó – até um pouco antes de eu nascer – trabalhava. Não há como negar no entanto que a televisão exerce uma grande influência em você quando criança quando: você quer que seus pais ganhem “01 milhão de dólares” na loteria, você acha que quando crescer vai ser ou uma astronauta, ou trabalhar na CIA. Mesmo assim, a televisão trouxe alguns “males” que eu identifico agora:

1 – A lenda da carreira perfeita.
2 – A lenda da escolha/resposta certa.
3 – E a tendência a querer agradar (todo o crédito dessa, vai para a Gennie).

A lenda da carreira perfeita.

Quando eu digo que o mundo mudou, quando eu digo que eu mudei, me refiro principalmente a esses três aspectos – que hoje em dia, finalmente, parecem estar “intelectualmente” resolvidos na minha vida, embora eu ainda não tenha tomado nenhuma resolução efetiva sobre eles.

A lenda da carreira perfeita é uma delas. Não é uma questão de Publicidade versus qualquer outra. Não é uma questão de produção versus gerência. A coisa vai muito além disso. O curso que eu cursei, ou que eu vá cursar além é irrelevante. Mesmo a questão de se gosto de produzir, ou se gosto de gerenciar é irrelevante – a fato é: quando eu acredito na validade do que estou fazendo, ou na relevância da minha contribuição, eu simplesmente faço – mas eu preciso gostar do que estou fazendo. Nesses conturbados quase 12 meses em que eu fiquei “gerenciando” a equipe, isso ficou claro para mim – a diferença entre gerenciar algo que se gosta, e gostar de gerenciar – são duas coisas absolutamente diferentes, mas não são excludentes. E muito do que eu me debati, não tem nada há ver com a gerência em si, mas com o que está sendo gerenciado.

É fato que, saindo do meu emprego atual, meu principal foco de procura não seria um cargo de gerência – mas no futuro, se uma promoção me levasse a isso, eu não diria não! Pelo menos contando que eu acreditasse no produto final, tivesse autonomia sobre contratação e demissão da minha equipe, bem como liberdade em questão de treinamento e motivação – e claro, acreditasse na qualidade do produto final. São esses os pontos controversos hoje em dia… Eu vejo aqueles reality shows sobre cinema, moda, culinária e percebo que eu não tenho problemas em aceitar ordens de um cretino que saiba muito – mas ainda tenho sérios problemas em aceitar ordens de um gentil que não saiba do que está falando. Meu estresse na Booknalinha, não é a questão gerencial – e sim perceber, sem sombra de dúvida, que o que está sendo vendido é a capacidade executiva e não o que está sendo executado. Colocando isso em exemplos mais palatáveis, se fossemos fazer uma comparação com uma produtora de cinema, a booknalinha é como a Globo Filmes: todo mês de Dezembro tem um filme da Xuxa, na data correta, liberado no cinema – e em questão de produção, datas e entregas eles são perfeitos… mas o produto final, ainda é um filme da Xuxa. E eu sou orientada a produto, então estar sempre ligada a um filme da Xuxa, ou trabalhar como uma condenada para ver que o resultado daquilo foi um filme da Xuxa não me dá prazer…

E isso vai muito além de uma carreira perfeita. Não existe carreira perfeita para se trabalhar com o que eu gosto! Isso é muito libertador e muito ameaçador. Eu gostava de acreditar que eu vivia num mundo que estava bem organizado: eu iria fazer publicidade, então trabalharia numa agência (ou várias) até o final da minha carreira… Mas não vai ser assim, não é assim. Eu fiz edificações – o que mais contribuiu para a minha formação, e infelizmente, para o reforço da cultura corporativa que eu tento romper – e fui desenhista cadista, depois fui bancária, depois fui para publicidade – já trabalhei como designer gráfica, designer multimídia, redatora, designer instrucional… e então eu percebi há uns 06 meses atrás que, o o que a Booknalinha solicitava de mim como Designer Instrucional, estava muito mais para uma Arquiteta de Informação Sênior, do que para Instrucional Designer… e nos últimos meses comecei a fuçar o mercado e percebi: é um mercadinho danado de difícil de entrar mas… é onde se encontra a especialização e os bons salários nessa área de comunicação/designer que eu fui acabar parando. Para mim está muito claro hoje em dia que eu sou uma profissional de comunicação (mais do que de publicidade) e que se alguém precisar de um rótulo, eu terei que dizer que sou designer (e quem não é afinal)… e mais precisamente, meu negócio é design gráfico, design de informação, arquitetura de informação e designer instrucional… o que normalmente se você disser a alguém, irá gerar muita necessidade de explicação… mas é o que acontece quando você está numa nova carreira.

Durante toda a minha infância e adolescência, eu não dei muito espaço a idéia de “escolher uma profissão”- para mim, estava tudo muito certo com relação a fazer publicidade… eu gosto de escrever, eu gosto de desenhar… E esse parecia ser o único lugar em que eu conseguiria utilizar essas duas habilidades.

Em nenhum momento eu considerei algo como “design” – no mundo do qual eu venho, nem existia tantas definições de “design” – apenas o feio e pouco adequado “Desenho Industrial”- E mesmo assim, meu mundo não compreendia definições de design – e mais importante do que tudo: não era um curso que a USP pudesse oferecer.

Mas agora eu vejo – mesmo não aceitando completamente, que Design Multimidia ou Design Digital teria sido o curso correto… Assim como poderia ter sido jornalismo, Editoração ou Ciência da Informação – a
ssim como Publicidade e Propaganda, mesmo que aos trancos e barrancos, acabou sendo.

É tudo uma questão de entender o contexto no qual estou inserida. O mundo mudou: passei 27 anos tentando encaixar o que eu gosto de fazer em uma carreira que pudesse ser começada aqui, e terminada 25 anos depois. E o mundo não funciona mais dessa forma. Eu ainda posso ser gerente de projetos em tempo integral – enquanto esse trabalho meu trouxer melhoras pessoais e financeiras significativas – eu posso ser uma arquiteta de informação nos meus horários extras, e eu ainda posso ser uma escritora freelancer e uma ilustradora amadora… Tudo está mais relacionado a habilidade de fazer a roda da fortuna girar, do que com colocar “a resposta certa” em prática.

O que mais interessa, é que pelos próximos anos eu vou me focar mais em Arquitetura de Informação… mas eu sei que daqui a uns 05 anos, nada pode evitar que eu me veja de novo diante dessas questões – e decida fazer, sei lá, gastronomia. Mas a felicidade em relação a minha profissão (ou todas elas) está em finalmente ter compreendido, que estou em uma nova função… E o emprego dos meus sonhos não está na outra ponta de um processo seletivo de trainee, e que está “ok” ter que explicar para toda pessoa com trabalho burocrático (ou inserido no que eu chamo de “Mundo Broadcast”) o que é que realmente eu faço atrás daquele rótulo não compreendido. Está “ok” se sua família não vê o resultado de todo esforço e estudo que você fez, pq o bom resultado que você pode colher com isso não é um emprego em uma multinacional, com carteira assinada, plano de saúde, vale refeição e vaga na garagem – pode até ser que isso aconteça… mas não é assim que se mede o desempenho no novo mercado no qual estou inserida. Tudo bem, dá pra ter inveja de todo advogado que compreende realmente os passos exatos que deve tomar para ir até onde deseja em sua carreira… mas não muito.

A lenda da escolha/resposta certa.

Está muito relacionado a questão anterior. Mas pode assumir novos aspectos. Eu cansei de responder pela escolha/resposta certa. E sinceramente estou cansada de entreter as pessoas com as “particularidades” das minhas escolhas.

É claro que muito disso tem há ver com o Idiota. Esse ano eu estou absolutamente “caseira” – e nem tem nada relacionado aquela bobagem de “começou a namorar esqueceu das amigas”. É claro que se ele estivesse por aqui, ele teria privilégios imensos nas minhas horas vagas… mas o mais fundamental, é que eu cansei de entreter os outros com essa história.

Tudo bem, no começo você está apaixonada e só quer falar da pessoa que ama – hoje em dia, deixe eu ser sincera: essa vontade continua, assim como a paixão. Mas essa história de “casal exótico” já deu… E estou cansada de ficar alimentando a curiosidade alheia. Na minha lista de relevância, a única parte “triste” da profissão que ele escolheu, é que me mantém longe dele na maior parte do tempo. Mas em última instância, ele é um homem, eu sou uma mulher – e é isso.
Não estou fazendo pesquisa para o novo livro do Dan Brown… não me interesso pelos “inside stories” da igreja católica…

A única diretriz que estou usando com o Idiota é: eu tenho que estar feliz. Enquanto eu estiver feliz, ele estiver feliz, e a gente estiver aguentando essa distância bizarra – pouco me importa se o senso comum diz que eu deveria procurar um namorado que estivesse aqui comigo toda hora, ou se 9 entre 10 pessoas acham que se ele realmente me amasse ele teria largado tudo pra ficar comigo.

Não existe “uma” maneira correta de viver a vida, nem uma diretriz exata para fazer escolhas… a minha diretriz é: “Estou feliz?” se sim, ótimo. Se não, faço outra coisa. Mas não vou ficar orientando minhas decisões amorosas, profissionais e de relacionamento, para o que as pessoas acham que seria mais “adequado”.

E isso vai para as pessoas que acham que eu deveria ser mais “sociável” – e que não lêem esse blog. Para as que acham que eu deveria estar trabalhando em uma grande empresa. E para aquelas que acham que eu deveria estar mais feliz com esse namorado perfeito imaginário que existe por aí.

E a tendência a querer agradar.

Esse talvez seja o problema de caráter/personalidade mais gritante, e que eu mais tenho que fazer algo a respeito – mas ainda não sei como. Toda vez que eu penso no site da Cameraweb, eu penso nele. São as coisas que eu vou dizendo sim, pq não consigo dizer não, e depois acabo queimando o meu filme com as pessoas – pq eu prometo muito mais do que sou capaz de cumprir.

Ainda estou trabalhando na questão de aceitar que eu não tenho superpoderes produtivos, e que para fazer uma coisa é preciso abrir mão de outra – muito disso está relacionado com essas vendas que estou promovendo, eu precisaria de mais uma vida para lidar com o material e as informações que eu pretendia absorver ou fazer algo no futuro… eu só tenho uma vida, e é essa que eu fico perdendo arrumando pilhas, gavetas e montes – e que continuam sempre bagunçados. Para ser sincera, eu poderia ser absoltumente feliz se eu entrasse no meu quarto agora e tudo que eu tivesse fosse esse notebook, a prancheta de desenho, algumas folhas, um caderno e algumas lapiseiras… eu não preciso de tudo que eu tenho, mas ainda não consigo me livrar de tudo… e como diz o topo direito desse blog: “aquilo que você não pode abrir mão, você não possui. E sim possui você. ”

Com as pessoas é a mesma coisa – essa minha mania de querer agradar as pessoas faz eu entrar muito pouco em conflito – mesmo que a maioria tenha essa idéia “A Priscilla tem uma acidez tão legal” – essa não é a intenção… normalmente, eu não libero meus comentários ácidos na frente de alguém que não tenha passado pelo filtro da “amizade”, mas as pessoas compreendem mal, achando que isso é parte integrante do que eu sou… não é… pergunte ao Idiota se existe algo de ácido em mim… ele vai achar que você está falando de outra pessoa.

Boa parte da acidez é para tentar fazer você, que a escuta, dar risada. Ficar um pouco feliz. Mas isso está sento tão mal compreendido, que eu realmente estou decidida a parar com isso. Pq tem um efeito estranho… estou olhando meus amigos, e não estou gostando do que vejo… eu vejo essa acidez deles, e não estou entendendo como vontade de fazer os outros darem risada, ou recurso estílistico… vem do fundo mesmo. Então como eu só uso isso como “punch line” ou recurso estilísco, vou guardá-la para os meus textos (que eu deveria estar escrevendo quando desestresso no blog).

Pq gente, não tenham a impressão errada…
Eu tendo naturalmente mais para a alegria do que para a melancolia…
Eu não sou antisocial… eu só acho que meus pensamentos são mais interessantes que as bobagens que a maioria das pessoas falam… mas eu tenho um grupinho seleto de pessoas que falam coisas tão interessantes quanto os meus pensamentos (bem, na maioria das vezes, rsrs) – e provavelmente algumas delas talvez tenham chegado a esse ponto do post.

Mas se toda vez que eu disser algo pra fazer alguém “sorrir” isso é confundido com “crueldade”, como se eu ficasse em casa remoendo coisas para despejar nos outros, ou se eu não consigo dizer não para as pessoas, e acabo decepcionando a maioria pelas promessas não cumpridas… então continuarei a me abster da companhia pública da maioria, até que eu consiga descobrir uma maneira de cortar esse mal comportamento nos dois casos.

No momento, estou me reeinventando.
E não dá para fazer isso batendo de frente com as imagens tão sólidas que os outros tem a seu respeito.

  1. #1 by Raven at September 27th, 2007

    Perfeito! Vc está com a devida visão da realidade… coisa que a maioria não tem. Vc tem cobranças externas, mas a pior é a que vem de vc mesma… antes que vc vá parar internada num hospital psiquiatrico por suas próprias cobranças e depois tenha que provar que vc não é doente, nem andou se drogando… aproveite toda a reflezão que fez e veja toda a verdade nisso! Vc está no momento certo da sua vida, as coisas acontecem como são possíveis de acontecerem…. A vida não acabou, pelo contrário… Vai curtindo o que tem de bom e eliminando o que tem de ruim para que isto não se aposse de vc! (O momento místico dos números… tem a ver com aqueles emails que não entendi bem)… Deixe as coisas fluirem!!!
    E já ando mais liberada pra sair de casa, mas com controle etílico, porque pra provar que não me droguei os médicos me drogam pra ficar controlada… Mas dá pra sair e falar umas bobeiras… claro que se encaixando nas nossas agendas de mulheres contemporâneas super ocupadas (as duas de férias por TGs), mas que usam os meios adequados para manter a proximidade…. Quanto ao que os outros pensam, não ligue neste momento… este momento é seu, não ligue nem pro que eu penso, nem pro que eu “tenha falado” e que não faça o menor sentido pra vc…hehehe… bju.. Cuide-se!

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