indian ink, upload feito originalmente por fruitcakey.“Aperta, aperta, aperta que vai sair”. Meu pesadelo era sempre assim. Ainda criança, alguma professora de educação artística malvada ensinou que a tinta nanquim, também chamada de tinta da China, era extraída da raia. Na inocência de criança, imaginava o pobre do bichinho sendo exprimido entre as mãos de um pescador malvado. Olhava o vidrinho de tinta com desconfiança, tentando imaginar quantos desses uma raia toda exprimida poderia dar. Dúvida eterna, pobre da raia.
Já as abelhas, no entanto, não partilhavam da mesma simpatia infantil. “Comunistas”, dizia uma tia, queriam dividir todos os meus bens mais caros: sorvetes, refrigerantes e cachorros quentes. Eu, capitalista e empreendedora, inventava sempre maneiras cada vez mais engenhosas de proteger minha propriedade: engenhocas de guardanapos, copos e sacos plásticos, um canudo aqui outro lá… Tudo eficientemente combinado para capturar e apreender essa invasora.
Mas muito tempo se passou desde a minha simpatia pelo destino das raias e minha luta com as abelhas pelo domínio das guloseimas. Tempo suficiente para que o buraco da camada de ozônio desse lugar ao aquecimento global na lista das preocupações principais que irão destruir a humanidade. Lembro até de uma conversa surreal escutada certa vez na fila do banco: “Mas e que fim levou o buraco do ozônio?”, “Taparam, ora bolas!”, “Mas tamparam como?”, “Mas você é burro hein? Que você acha que a esquadrilha da fumaça faz?”.
Hoje o nanquim não é extraído das raias – se é que já foi um dia. Não perturbo mais meus sonhos pensando na China como um país que come cachorros e espreme raias. Hoje em dia essa tinta é um preparado químico que mistura algumas substâncias aquosas com partículas de carvão. “Nenhuma raia foi ferida durante a produção desse material” é um adesivo que a minha criança interior gostaria de ver nos vidros de nanquim. Ela também não precisa mais temer que as raias sumam do planeta por conta da tinta… Mesmo assim as raias somem. Talvez as raias acreditem, assim como a minha criança interior, que essa história de “produção química” é uma grande balela – e por via das dúvidas decidiram se escafeder!
O comunismo também saiu de moda desde a minha infância. Ninguém mais quer dividir nada… Nem as abelhas. Outro dia comia um cachorro quente ao ar livre, desocupada e displicente, com todos os complementos possíveis e um refrigerante muito convidativo. De repente, me apercebi do que fazia. Olhei para os lados, procurando pela sociável abelha se achegando em seu vôo simpático que em “abelhês” deve significar “Oi, me dá um pedaço?” – como se eu tivesse em algum momento dito “Está servida?” – e nada! Andei alguns passos de um lado para outro, provocando uma visita… Nada! Pensei em correr de um lado para o outro, gritando e pedindo pela minha mãe – tudo no espírito de relembrar os velhos tempos – mas não apareceu nenhuma abelha saudosa. Acho que ficamos engenhosos e empreendedores demais: todos os guardanapos, copos e sacos plásticos finalmente funcionaram.
Para onde foram as abelhas, cada vez mais desaparecidas? Alguém sabe algo das raias que soltam um líquido preto e viscoso na água toda vez que se sentem em perigo? Aparentemente não… Só se sabe do líquido preto e viscoso que nos coloca em perigo. Não se sabe de mais nada, ou não se apercebe de mais nada.
Indelével. Essa é a principal característica do nanquim, das memórias infantis e da dor das picadas por abelhas. Nas minhas lembranças, são assuntos todos interligados e indeléveis – mas aparentemente não indestrutíveis. Um dia as abelhas viram figuras raras, no outro as raias… Quem garante que para mim não é só um passo? E nesse passo, começo a pensar se não é hora de começar a fazer alguns desenhos de abelhas e raias, para que possa apresentar aos meus filhos. Em nanquim é claro… Só pra mostrar que algumas marcas e criações humanas são assim… Indeléveis.
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Essa foi a crônica escrita para o concurso de Crônicas da Astra, sobre o tema meio ambiente. A Elaine, o Denis e eu ganhamos apenas experiência – nenhuma das nossas cronicas selecionada entre as 20 mais. Tudo bem que nossa esperança de ganhar qualquer coisa desapareceu depois que a comissão julgadora foi anunciada: A Academia Feminina de Letras de Jundiaí (num concurso em Jundiaí). Resultado, 30% dos vencedores de Jundiaí, e 70% dos arredores. Mas valeu o exercício e realmente ter participado… Não apenas pensado em participar e deixado de lado depois.