Antiguidade, upload feito originalmente por elieserleao.
“Digita o local no Flickr, que você vai ver umas fotos muito mais legais”. Foi assim que me certifiquei que os tempos mudaram. Enquanto minha jovem amiga universitária fazia seu trabalho de história da Arte, vi que as crianças de hoje não tem como nem por onde serem semelhantes as de ontem.
Na minha época pré Internet, sem computadores pessoais, sem conjunto de enciclopédias que acompanham jornais e revistas, e sem linhas telefônicas (a primeira de casa foi instalada quando eu tinha 17 anos), pesquisa escolar era sinônimo de uma coisa: visitar a Pedro Nava – que costumava ser a referência do cruzamento da Caetano Álvares com a Voluntários da Pátria. Hoje em dia, o cruzamento do Mc Donalds.
- É fica alí perto do Mc… sabe onde tem aquele negócio da prefeitura?”
- Ah, o posto de saúde?
- Não… acho que é uma delegacia!
Sim. Bibliotecas públicas são as coisas mais percebidas nas paisagens urbanas. Ou a segunda coisa mais percebida… logo atrás dos mendigos e moradores de rua.
Fazer pesquisa há 18 anos atrás fazia parte de todo um ritual. Primeiro, você selecionava um caderno que pudesse arrancar folhas – que afinal, você não pode entrar com seu caderno da biblioteca – pelo que parece, na mente dos bibliotecários, um caderno brochura é o melhor lugar para esconder e se escafeder de maneira desapercebida com um volume da britânica. Depois uma série de lápis que pudesse colocar no bolso, já que canetas esferográficas, apontadores e estojos estavam definitivamente banidos do ambiente da biblioteca.
Não podia esquecer também nem o RG, nem uns trocados. Com sorte, se o seu material de pesquisa não tivesse mais do que 05 páginas, você poderia retirar o livro por um período de 01 hora. Nessa hora você deveria localizar uma xerox, e fazer o cara assinar um documento certificando que você só hávia xerocado as páginas que estavam autorizadas no seu recibo de saída… Se você enlouquecesse, poderia até abrir mão de ter o RG de volta e não devolver o livro. Seria apenas colocado numa “lista negra de frequentadores de bibliotecas públicas”, que seria sempre checada caso você fizesse o mesmo em outra biblioteca (zero pontos para a capacidade de prevenção de delitos).
Mas xerocar material era lucro. Quando estava na terceira série precisei fazer uma pesquisa para a “Festa do Folclore” (hoje em dia parte do folclore são essas feiras em escolas públicas). Meu tema: As Amazonas! Primeira luta: convencer minha mãe da necessidade de ir até a biblioteca pesquisar… No que lhe dizia respeito, eu havia apenas entendido errado e meu tema era “O Amazonas”. Olhamos na Trópico, nada sobre nem um nem outro (trópico era uma enciclopédia de 20 volumes, totalmente década de 1970 que tínhamos em casa, fazendo compania para o “Manual do Escoteiro Mirim” do meu pai). Restava ir até a biblioteca mesmo.
Chegando lá, procura o tema naquele item de usabilidade 0,01 (arquivo de fichas). Minhas amazonas estavam na Barsa, em um de seus volumes. Localizei o volume, depois a página e finalmente o verbete. Lá estava o meu prêmio por ter seguido todo o ritual, em linhas e quantidades semelhantes a essa:
Olhando o que a Wikipedia escreve sobre Amazonas, vejo que nessa época a gente se contentava com bem pouco.
Hoje não tem nada disso. Wikipedia, apesar dos preconceitos é um ótimo ponto de partida. Até os preguiçosos que decidam parar por ela, terão mais material para trabalhar em cima do que o mais bem intencionado CDF da minha época. Ajudando no trabalho de história da Arte, vasculhando pelo Flickr por monumentos famosos, estava vendo o quanto era irrelevante encontrar fotos em enciclopedias ou livros escolares. Procurávamos pela Catedral de Notre Dame, e não só era possível encontrar fotos de qualquer ângulo, como de seu interior, suas gárgulas, seus detalhes. Você puxa um fio, pode desenrolar o novelo todo e até chegar na ovelha que deu origem.
Dá até uma certa invejinha das crianças de hoje. Vontade de pegar o meu Delorean, buscar a garotinha decepcionada com a pesquisa das Amazonas, e apresentar a Wikipedia, o YouTube e o Flickr até não poder mais.
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Confrontada com estar planejando a Pós, e mais um período decidido de 05 anos de estudo, comecei a me lembrar que o tempo passa, e você pensa que foi fácil chegar até aqui, ou não dá o devido valor ao que investiu, ou ao tempo e cuidado que seus pais investiram para que você chegasse até aqui – ainda achando que isso “não é grande coisa”. Não quero ser leviana em relação a isso. Então ainda me choca muito quando eu vejo gente recebeu muito disso de mão beijada e faz pouco caso. Ou pior, confunde uma falta total de disciplina e coragem para levar esse compromisso adiante, com “ter um espírito livre demais pra essas amarras”. É… liberdade, criatividade… palavras mal utilizadas à exaustão.
Hm… sobre essas diferenças gritantes de acessibilidade, concordo plenamente…. Mas a wikipedia precisa ser alimentada de alguma forma…. E ainda são os livros que possuem esses registros… Ando bem preguiçosa pra ir às bibliotecas, mas elas ainda têm valor, principalmente pq não tenho dinheiro pra comprar tudo o que gostaria…
Será que ainda é certo o ditado: Dão nozes a quem não tem dentes?
O DeLorean, sempre quis ter um igual… mas hoje em dia, não sei qual seria o uso.
Mas por um curto período de tempo. Em breve, o conhecimento primário virá do digital, e as pessoas começaram a registrar suas contribuições no digital. Não estou dizendo que o livro irá morrer, mas o livro referência (enciclopédias e guias) com certeza. Uma enciclopédia britânica impressa é atualizada de 07 em 07 anos… uma enciclopedia digital, pode ser atualizada a qualquer momento. Livros que mostram uma enfoque, uma forma de pensar, literários etc. nunca vão morrer… mas compêndios estão sem dúvida em extinção. E eu espero que os dicionários sejam os primeiros a ir. Dicionários impressos são o pior fim que uma árvore pode ter.
Sim, sim…. também concordo com isso… afinal, bem mais fácil digitar em uma busca os verbetes do que ficar folheando. E acho que a atualização digital tem a velocidade necessária para os tempos que estamos construindo.
Sim, sim…. também concordo com isso… afinal, bem mais fácil digitar em uma busca os verbetes do que ficar folheando. E acho que a atualização digital tem a velocidade necessária para os tempos que estamos construindo.