A ONDA – Die Welle

Remake alemão revitaliza obra fundamental para compreender a proliferação do nazismo entre pessoas como eu e você.

No episódio final de Arquivo X, existe uma frase de Fox Mulder que sempre ficou na minha cabeça, embora eu só tenha visto o episódio uma única vez:

“O diabo é só um cara com um plano, mas o mal nasce com a colaboração dos homens”.

Perdão se a citação não estiver exata e a memória tiver falhado. Em todo caso, a essência está aí.

Nas minhas lembranças, a versão original de “A Onda” está, juntamente com “A Ilha das Flores“, entre as obras apresentadas por professores no segundo grau que valeram todo o curso – sem exageros.

Desde então estou procurando sem sucesso uma cópia desse filme americano de 1981, feito para a TV – e aparentemente por aqui também só exibido na TV – ao que indicava a gravação do professor, ainda restrito a programação da madrugada da Globo, quando ainda havia espaço para diferentes formatos por lá. O mais próximo que consegui chegar, foi a essa versão digitalizada no final do texto, diretamente do You Tube – publicada por um usuário que tomou como meta pessoal expor a Cientologia como seita perigosa.

A história do antigo filme gira em torno de um professor de história (Bruce Davison, o Senador Kelly de X-men e X-men 2) que confrontado pelo questionamento dos alunos sobre como o povo alemão permitiu a ocorrência do nazismo, decide mostrar que não houve nada de inacreditável na conduta do povo alemão. Para isso, ele começa a aplicar nos alunos algumas técnicas de condicionamento facista, que desapercebidamente eles abraçam com todo fervor – num crescente de envolvimento que inclui até o professor, admirado com o poder recém adquirido e a violência com que os alunos começam a tratar os dissidentes.

Duas questões sempre estiveram envolvidas para mim na paixão por esse filme: a história da turma do meio, e nosso desespero assumido/negado, mas sempre existente de fazer parte.

A história da turma do meio é a história da massa aparentemente inocente. É a massa que normalmente não vira história, mas por sua passividade torna a história possível. Em filmes com a temática escolar por exemplo, você sempre tem o popular/provocador contra o impopular/vítima – e sempre esquece que essas figuras só são possíveis por conta da imensa massa que se não ajuda a provocar esse tipo de conduta, com certeza não faz nada para evitar a provocação – o filme ajuda a refletir o quanto “não se meter” ou pensar “não é comigo” ajuda normalmente o lado errado.

“Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
(Fragmento de: “No caminho, com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa).

A outra observação perversa é constatar o quanto a incapacidade de interagir no mundo de forma independente, de aceitar a própria individualidade, nos torna sucetíveis a abraçar cegamente estruturas normatizadas maiores que nós, permitindo que um conjunto de regras muitas vezes questionáveis nos alivie de questionamentos existenciais básicos que provocam mais desconforto que respostas. Tudo por conta de se sentir fazendo parte de algo, acabar com a sensação de estarmos só. Aqui, é claro, aplicado ao nazismo; mas podemos extrapolar para posicionamentos ideológicos fechados, religiosos, políticos etc.

Ainda não assisti a versão alemã de 2008 – segundo a Superinteressante, o filme chega aos cinemas por aqui em 29/05. Mas nem preciso dizer depois de tudo isso que, por se tratar de um remake alemão sobre o tema, e por todo meu apego sentimental em relação ao original, estou ansiosa para ver o filme.

P.S.: Ordens são ordens? A história acusa Hitler pelo Holocausto, e os EUA pelas bombas atômicas no Japão – mas sozinhos eles não teriam feito nada. Sempre me pergunto como dormiam a noite as pessoas que acionaram as câmaras com gás, ou soltaram as bombas. O que passa pela cabeça de uma pessoa para receber uma ordem dessas e aceitar como “é uma ordem” ao invés de responder “Você é idiota? Está pensando o que?”. Nada, especialmente o mal, é uma obra individual.


Mais informações:

Link
para a página do filme original.
Link
para a página do filme atual.

A onda – Parte 01.

A onda – Parte 02.

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