MONEY GIRL.




Mo Money, upload feito originalmente por Pankcho.

Mais um domingo assim. Menos um domingo de vida. Na maioria das vezes eu esqueço a falta de respeito que é deixar a vida passar assim despercebida. Pela satisfação pessoal – ou insatisfação pessoal – ser um assunto constante, de vez em quando eu assumo ares de quem não tem direito em continuar se sentindo assim “em busca”. Nessas vezes dá vontade de olhar no espelho e dizer “Pare de choramingar! Engula e siga em frente”. Mas o fato é: eu me conheço melhor do que gostaria de conhecer. Eu sei que um dia – e hoje em dia mais em breve do que eu costumava pensar – vou olhar pra trás e lamentar o tempo gasto simplesmente não sendo feliz.

Houve uma época em empresa passada, no mesmo ramo de atividade, em que eu simplesmente não conseguia chegar no horário. Até aí, parece normal… Mas não era. Eu não saia atrasada, eu saia com tempo suficiente para chegar no horário. Eu simplesmente não conseguia ir. Eu deixava vários ônibus passarem, vários metrôs passarem e nunca conseguia fazer uma caminhada de 05 minutos em menos de 15 porque eu simplesmente não conseguia andar. Para andar era preciso por um pé na frente no outro, e para que isso fosse feito eu simplesmente precisava dizer para mim mesma “vai, mais um passo”. Eu me lembro disso porque um dia, no meio do bosque do IPEN eu parei. Acho que parei por uns 02 minutos, considerando seriamente se ia em frente, ou se voltava pra trás e nunca mais voltava. No final das contas fui em frente. Nunca descobri se foi à melhor escolha.

Eu não entendo dessa história de “seguir seus sonhos”. Para ser sincera, nunca conheci uma única pessoa ao meu redor que tenha feito isso. Conheço várias que racionalizaram suas circunstâncias para “o mundo é assim”. Várias que racionalizaram os resultados frustrados dos seus esforços como “o lugar ideal que gostaria de estar agora”; mas não conheço uma única alma que tenha tido um sonho e seguido ele até o final… A maioria até sonha, mas tende a acordar no meio do projeto. A isso elas dão o nome de “crescer, assumir responsabilidades, amadurecer” etc. Essas palavras que andam de mão dadas com algo que eu ainda não sei identificar se é sensatez ou covardia. Não que eu tenha feito melhor, mas toda vez que eu tento utilizar uma desculpa “sensata/covarde” eu não consigo deixar de me sentir uma farsa, uma vítima de uma mentira deslavada na qual eu não acredito o suficiente nem para emiti-la com convicção.

Não existem tons de cinza no mundo que eu vejo. Ele é preto ou branco. Ou você segue seus sonhos e vive na sarjeta, da boa vontade dos pais, da boa vontade da família e sai por aí repetindo que não está muito nessa de “consumismo” e outras coisas; ou você vende a alma de uma vez, assume que se tornou adulto, fica com “sangue nos olhos” e compra a briga. Mesmo isso sendo tudo o que eu vejo no momento, ainda me parece muito simplista.

Tudo o que sei é: eu vendi minha alma por dinheiro – mas ainda me recuso a entregá-la. Não existe nada que eu tenha feito nos últimos 11 anos de trabalho que não tenha sido feito por dinheiro. E é uma barganha estranha, uma barganha cruel, uma barganha falsa. Eu não estou nadando em rios de dinheiro, mas não me importo no fundo por que isso permite que eu não fique tão mal por não me entregar às coisas por completo. A sanidade é mantida por uma doce ilusão que existe uma parte de mim que pode pular fora disso a qualquer momento e escolher fazer uma coisa completamente diferente com a própria vida. O que está me matando ultimamente, é que essa última partinha de sanidade está deixando de existir.

Eu não acredito mais que eu possa parar e virar uma ilustradora. Eu não acredito mais que possa parar e ser uma Designer Gráfica Freelancer. Eu não acredito que possa trabalhar como redatora freelancer. De fato, eu não acredito que eu possa trabalhar em mais nada além daquilo que trabalho, e nem isso eu quero porque eu não agüento mais que o propósito da minha vida, que 14 horas do meu dia, que 14 horas da minha existência diária existam por conta disso. Eu não quero acreditar que o propósito da minha existência seja passar 60 horas por semana em um escritório, administrando entregas que exigem mais de mim do que eu gostaria, explicando banalidades pra gente medíocre, para ainda chegar à segunda-feira e ser cobrada por não ter dado o sangue, uma forcinha extra no meu final de semana por gente que está vivendo a vida e seguindo em frente, quando pra mim tudo se resume a coisas atrasadas, contas atrasadas e a extinção total do que eu sou.

Num verdadeiro pacto com o diabo, você abre mão da alma pelas coisas da terra. No caso contrário, abre mão das da terra pelas coisas da alma. Quando você se vê sozinha, sem grana, sem vontade, sem reconhecimento, sem ânimo, sem saúde, sem beleza, sem esperança; começa a se perguntar com quem ou o que diabos você fez um pacto.

E hoje eu sinceramente não sei mais do que em nenhuma outra época o que é que eu quero. Eu só sei de uma coisa: eu não quero nem mais uma semana disso. E mesmo assim, vou continuar assim até que seja impossível sair da cama.

  1. No comments yet.
(will not be published)