GRANDILOSA


Sabe… Eu nunca gostei muito de Alice no País das Maravilhas… Para ser sincera mesmo, eu nunca gostei de nada em Alice no País das Maravilhas: nem do livro, nem do filme da sessão da tarde, nem do desenho da Disney (ainda mais do desenho da Disney). Toda a minha consideração por essa história se resumia pelas citações na Trilogia Matrix (seguir o coelho branco pela toca do coelho) e pelas histórias da coleção Animatrix (citando a rainha vermelha, e blá, blá, blá).

Por conta disso, não é de surpreender que eu tivesse ficado com um entusiasmo abaixo de zero quando soube que o Tim Burton estava trabalhando em uma versão live action da história. Soma-se nesse caso o fato de que eu amo o Tim Burton – mas estou longe de considerá-lo infalível. Assisti o remake de Planeta dos Macacos e me decepcionei profundamente com Noiva Cadáver, além de toda uma coleção de sentimentos ambíguos em relação ao remake de “Fantástica Fábrica de Chocolate” – ou seja, como você pode ver, tenho sérias preocupações com o Tim Burton fazedor de remakes.

Apesar de tudo isso, eu precisava corrigir um desvio terrível: eu, cinéfila de carteirinha – que pra dizer a verdade está quase a ponto de ser cancelada – jamais havia ido no IMAX assistir um filme 3D. Três andares de tela, 21 metros de largura… E até Alice eu não tinha nem me dado ao trabalho de visitar o cinema. Então, para o filme que eu menos tinha expectativas de ver, o filme mais apedrejado que final de LOST no Twitter, eu decidi me deslocar pra lá…

E olha que nem de longe eu me decepcionei como a maioria.

Claro que o fato de eu não ter paixão pela história original ajudou. Claro que a clássica moral da história Disney do Tim Burton decepcionou muita gente (não é de hoje que eu digo que o Tim Burton é o diretor com mais paixão por final feliz que existe, por mais que a embalagem deles seja bizarra). Mas o fato é… Eu precisava da lição de moral barata do filme, mais do que eu precisava da lição de moral do original.

A Alice dessa versão é uma garota próxima dos seus 19 anos, que está sendo consumida pelo mundo – em suas obrigações e no que se espera dela. Como todas as crianças, ela pode ter sido um modelo de pensamento livre e criativo – mas ela não é mais criança… Então como conciliar pensamento livre, imaginação e toda uma porção de coisas com a vida que começa a exigir posturas determinadas, ações determinadas etc.

E eu vejo isso na minha vida, e na vida de muita gente ao redor. Gente que, como eu, está chegando na casa dos 30 anos, usa camisetas de HQ, compra itens descolados, se veste bem cult mas… Tudo o que ainda tem daquela força infantil de acreditar em possibilidades, ter sonhos, investir e se dedicar no futuro resume-se a essa embalagem atualmente vendida como o uniforme do “jovem rebelador do sistema”.

Posso estar indo longe, extrapolando o conceito – tenho quase 100% de certeza que estou – mas foi por aí que o filme me pegou.

Estava pensando nisso quanto me debatia mentalmente ontem como modo de ensino de diversos cursos que estou matriculada no momento. Estava me batendo com o fato de alguns serem mal estruturados, outros não oferecerem o que eu esperava, outros estarem distantes do que eu precisava etc. E de repente percebi uma coisa… Quando foi que eu me tornei “aquela garota”, a aluna que sempre tem os livros corretos, os materiais adequados,  o conhecimento prévio desejado mas… o resultado medíocre? Igual aqueles estudantes de Gastronomia que tem chapéu de chefe, facas caríssimas e mal sabem cortar uma cebola?

Desde que eu comecei a ter meios para isso – coincidentemente a partir dos meus 19 anos – eu tenho gasto boa parte do meu tempo, do meu dinheiro e da minha dedicação em corrigir os 19 anos em que eu sempre estava presente nas situações sem o preparo adequado – e acabei me tornando o que eu mais odiava: aquelas pessoas com ótimas possibilidades, mas que não faziam nada de valor com elas. Lembrei de fatos corriqueiros do pré até a faculdade que reforçavam isso…

Quando foi que eu comecei a achar que alguém saberia mesmo algo melhor do que eu? Não é uma afirmação presunçosa embora pareça. Eu sempre corri atrás do que eu queria, da forma que eu julgava mais ideal… E em um ponto eu parei, crente que era a hora de fazer as coisas da maneira “correta”, da maneira que todo mundo faz… Ou da maneira que todo mundo julga ser correta – e acredite, isso não trás felicidade.

Se existe algo que me trás felicidade – e acredite, existem montes dessas coisas, ainda bem – foram todas coisas que começaram da maneira “errada”, pelo menos errada como você ou qualquer outra pessoa acreditaria que deveriam ter acontecido. As coisas lógicas, bem pensadas e sensatas no entanto… Sem comentários.

Sinto o mesmo quando comparo as “análises sociais deterministas” do meu sócio, com as idéias de desenvolvimento pessoal do meu antigo chefe. Conceitualmente, meu sócio parece estar certo e meu ex-chefe tremendamente viajante mas… O fato é que todo desenvolvimento na minha vida jamais teria acontecido se eu tivesse seguido essa lógica social determinista. Enxergar as paredes – ou os limites – nunca é a maneira mais proveitosa de ultrapassá-las.

Eu não sou mais GRANDILOSA como costumava ser… Vamos ver se descubro como consertar isso.

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Extras: o cinema IMAX agradou pra Karaio! Tanto que namorado não considera outra possibilidade para assistir Fúria de Titãs.

  1. #1 by Net on 31/05/2010 - 12:39 PM

    Olá, bom sem querer encontrei seu blog, lá pelo site da livraria cultura, enquanto eu procurava por moleskines, e foi lendo esse texto, esse desenrolar do seu texto, que me cativou, e digo que voce ganhou um leitor. Muito bom, continue.

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