quinta-feira, 5 de maio de 2022

Resenha: "Como se encontrar na escrita"



O texto a seguir está escrito desde agosto de 2021 — na época eu estava um pouco enraivecida com o livro, e não sabia se a minha resenha ia direto aos pontos que me incomodavam, ou se era apenas um exercício de extravasamento. Hoje, 09 meses depois, penso estar adequada à minha experiência com o livro.
(HOLANDA, Ana. Como se encontrar na escrita: o caminho para despertar a escrita afetuosa em você. São Paulo: Rocco | Bicicleta Amarela, 2018. 224 p.)

A raiva também é afeto… Tortuoso afeto.

(Há que se perceber a ironia de resenhar negativamente um livro, utilizando seu próprio método).

Há alguns anos, minha irmã me incluiu em um grupo fechado de "economia criativa" no Facebook: Rede Dotsy. Lá, pessoas das mais variadas origens e históricos apresentam seus produtos e serviços. A maneira como isso acontece, no entanto, sempre me incomodou: todos tem que apresentar a sua história de vida, um pouco daquilo que faz seu produto ou serviço único. Arquitetas que hoje fabricam bonecas de pano, falam da mudança de vida provocada pela chegada dos filhos. Analistas Financeiros que hoje fazem móveis de madeira, falam do reencontro com o manual, das dificuldades do mercado e coisas do tipo.

Parece legal trazer essa "vida" para a relação de consumo... Mas isso sempre me causou incomodo. Não basta a pessoa fazer um bom produto, entregá-lo com profissionalismo, fotografar, divulgar — tem também que abrir seu coração, ter a história mais bonita, o motivo mais significativo... Não basta ter boletos e precisar pagá-los. Não basta ter filhos e ter que alimentá-los. Não basta estar desempregada e fazer o possível para sobreviver... Tem que se mostrar, se abrir e, ser percebida como digna dessa relação de consumo. Lembro do filme “Coração de Cavaleiro”: “Você foi pesado, medido e considerado insuficiente”.

O feed desse grupo me parece um ônibus, em viagem infinita, onde a cada minuto sobe um novo vendedor: "Senhores passageiros, desculpe incomodar a sua viagem...". É preciso que as pessoas se abram tanto para sobreviver? A vida dos compradores é assim tão insignificante que é preciso encontrar um sentido maior de caridade toda vez que se compra um sabonete ou se encomenda um bolo?

E o que o livro da Ana Holanda tem com isso? "Como se encontrar na escrita" é a Rede Dotsy dos livros de escrita — e você já deve ter isso em mente desde o prefácio. Quando Márcio Vassalo diz que "Como se encontrar na escrita não é nem de longe um daqueles manuais de técnicas bocejantes para escritores apressados, nem uma coletânea de fórmulas para autores que querem publicar mais do que escrever", ele está certo. Não é um manual de técnicas, não vai te ensinar a escrever ficção... Mas também não vai te ensinar a escrever não-ficção... Ele vai te ensinar a escrever "Vida Simples" — a revista da Abril que, como assinante, li por alguns anos. E lê-la, por si só, já seria suficiente para entender o que Ana Holanda chama de "escrita afetuosa". Uma escrita com ponto de vista, com o autor como parte do texto. Vai além do storytelling, porque não basta contar uma história: é preciso contá-la a partir de um ponto de conexão com o assunto. A diferença, é que enquanto a grande maioria dos livros de escrita fala sobre "falar a verdade" ou "dizer o que você conhece", nesse a recomendação é que você esteja lá, seja parte da história.

De fato, ao escrever assim, a possibilidade de um texto único é infinitamente maior. No entanto, me peguei pensando em diversos pontos do livro em que categoria de escrita isso poderia ser útil. Para uma jornalista, como ela, em uma revista como a Vida Simples, parece fazer sentido. Para mim e você, em um blog, em uma newsletter, em uma crônica, ou em um diário também — mas a coisa para aí... Ou talvez pare em uma resenha como essa.

A necessidade de se colocar, de ser a medida de análise e avaliação do mundo, a lente pela qual se enxergam todas as coisas — de maneira explicita — me incomoda profundamente; mesmo eu não sendo jornalista. Nossa capacidade humana está tão em baixa que eu só consigo falar de perda encontrando uma situação de perda em mim? Só consigo falar sobre a dor do outro se tiver vivido algo semelhante? Não existe mais empatia? Capacidade de enxergar o outro e se esquecer si só um pouquinho? Preciso apresentar credenciais de sofredor para que o leitor valorize o assunto — "esse sim sabe do que fala"?

Não quero ter a necessidade expor sempre um ponto pessoal de relação com aquilo que escrevo — nem quero cobrar de ninguém, que se propõe a escrever, que revire a alma e os próprios traumas para poder falar sobre determinado assunto. Especialmente quando tantos utilizam a escrita para processar essas situações. E afinal — qual a medida dessa semelhança? Não quero ser a pessoa sem filhos que, tendo que escrever algo sobre maternidade, se apega a "ser mãe de planta" para conseguir falar sobre o tema. Não quero ser uma dessas pessoas que tropeçam na calçada irregular e escrevem um longo texto no LinkedIn sobre como "ao tropeçar em uma calçada mal feita, consegui enxergar como os pequenos descuidos no nosso trabalho podem ter consequências sérias para os outros".

Renderia um texto a parte, também, todas as considerações suprimidas — até esse momento — sobre o contexto social de origem da autora. A maioria das pessoas não precisa de sugestões como "conversar com um trabalhador comum para entender a vida", porque são trabalhadores comuns. Não precisam de textos que valorizem a emprega doméstica como "gente como a gente", porque nunca tiveram dúvidas sobre isso. Não podem aproveitar uma caminhada até o trabalho para organizar as ideias porque moram há duas horas de ônibus/metrô de lá. Então existe esse recorte também — de ser um livro sobre escrita para um escritor ideal que habita o eixo "Vila Mariana - Vila Madalena". Alguém que pode dedicar um sabático para se trancar na casa de praia da família, isolado, com seu Macbook e alguns bons vinhos, contemporizando sobre como o tempo de espera na fila da padaria se relaciona com a nossa inquietude interior diante dos desafios da vida; em longos textos sem prazo de entrega ou relação com os boletos do mês.

É perceptível que, de maneira geral, a proposta de escrita do livro não me atrai. Não quero ser a medida do mundo. Sim, eu gosto de atenção... Sou leonina, sou publicitária, gosto de ser a palhaça da família, mas... Não quero chegar ao limite de chamar "afetuosa" uma escrita "egocêntrica". Uma amiga apontou "porque continuar lendo um livro que não lhe agrada?". Gostaria de poder dizer que em parte, porque não gosto de deixar essas iniciativas inacabadas. Mas, na verdade, é porque quando assumo a opinião do autor como um desaforo, quero ver até onde ele terá do desplante de chegar… O principal motivo, no entanto, é que eu não confio nos meus humores para essas decisões. Tenho a sensação latente que quem desiste muito das leituras só está procurando um motivo para calar com uma voz dissidente e correr para o quentinho do reforço da própria opinião, do eco dos próprios pensamentos. Leitura e escrita, no entanto, sempre me pareceram oportunidades para abrir portas para outros mundos... Não faço questão de chegar ao pré-sal cavando meu próprio quintal.

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Conheça, leia e viva sua própria experiência:




terça-feira, 19 de abril de 2022

“O tempo passa, o tempo voa...”

É incrível a capacidade que o tempo tem de passar quando a gente promete que “amanhã a gente volta” — sem mais nem menos, passou mais de um ano. Pela primeira vez eu tenho um ano em branco no histórico desse blog... Quer dizer, além dos anos que eu apaguei por pura vergonha.

Os blogs podem ter morrido — eu não! Talvez apenas um pouco. Talvez por tédio.  Talvez por enjoo. Muito por desânimo. Dizem que as redes sociais mataram os blogs, mas é mentira. As redes sociais estão a caminho de matar toda a internet, não apenas os blogs. Há mais de duas décadas, quando a gente montava um blog, abria a vida, montava um diário online, falava das coisas que nos encantavam, fazia busca em blogs alheios, conhecia gente, fazia “amizades virtuais”. Depois das redes sociais isso não acontece mais. Nossos textinhos deram lugar a textões — não há mais espaço para conversa, estamos todos apenas tentando ter razão.

Muito do que eu penso em escrever morre em um de dois filtros: medo e relevância (quando não apanha na cara dos dois). Às vezes você pensa em desabafar, se abrir — mas o efeito das redes sociais traz o filtro do medo: “Será que vai aparecer alguém por aqui querendo problematizar que eu não gosto de café com leite” — alguém que vai me dizer que essa é a escolha de uma pessoa privilegiada,  que estou querendo fazer pouco do café da manhã de 90% dos brasileiros ou dizendo que isso é muito pouco nos esforços para a causa animal, aquecimento global ou qualquer coisa do gênero? Tenho ânimo para lidar com isso? Não sou Clarice, não sou Lygia. Não escrevo aqui por que sou paga — na maior parte das vezes, escrevo apenas porque não posso evitar. Porque meu diário é um suspiro e não um grito; e às vezes é preciso gritar — mesmo que para o vazio, sem direito a eco.

Já o filtro da relevância traz para perto, cada vez mais, a sensação de ser um grão de areia no mundo. “Sério que depois de uma pandemia, mortes, fome, desgaste político, crise de trabalho e afins você quer que alguém pare e pense na sua melancolia provocada por séries de design nos serviços de streaming?”. Não sei se quero... Mas sei que é o que tenho para hoje. Não tenho nada a acrescentar em um mundo cada vez mais focado nas coisas grandes. Em bilionários que querem dar uma volta no espaço (a despeito das toneladas de gases tóxicos que despejam na atmosfera de alguém que, como eu, há 12 anos não vê o mar). Que querem comprar redes sociais em dinheiro. Ou que tramam golpes de estado para conseguir lítio mais barato (estaria eu de provocação com o mesmo inteligentíssimo bilionário que é no fundo, um grande idiota?).

O meu lugar é pequeno. O meu lugar é contido — ele se preocupa com as contas do mês que estão para pagar. Em como colocarei a casa em ordem em um apartamento pequeno, com um marido, filha, sete gatos e um jabuti. Daqui eu me preocupo com a pilha de livros que quero ler, com pilha de papéis que quero rabiscar — em assistir o último filme de super-heróis feito por alguém que na infância, assim como eu, colocava uma capa nas costas e fingia ter superpoderes. Não vou, muito provavelmente, "colocar uma marca no universo" — me dou por satisfeita em encher de vincos a minha própria vida, e das pessoas ao redor. Saber que no final, eu vivi, gastei minha cota, não me guardei para mais tarde enquanto a vida acabou.

Coração Selvagem | Belchior

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A mulher que chora assistindo "Abstract"

Photo by Rodion Kutsaev on Unsplash

Disclaimer: desde 2014 -- ano em que minha filha nasceu -- "lágrimas" não são um termo alheio à minha pessoa. A filha veio "liberando a torneirinha interior" e possibilitando que eu chore até de um origami bem feito... Estabelecido esse fato, acho que o caso com "Abstract" da Netflix é um pouco diferente.

A série, lançada em 2017 pela Netflix, e com duas temporadas, fala sobre Design em geral, por meio da apresentação do trabalho de diversos profissionais em diversos campos: ilustração, cenografia, design gráfico, arquitetura etc. Logo que a série saiu, eu assisti o primeiro episódio sobre "ilustração" e parei -- acabou mais me dando uma pontadinha no coração daquelas "bem, esse cara é ilustrador pra New Yorker, está um pouco [MUITO] fora da minha liga. Qualquer coisa que ele possa dar de dica não se aplica muito a mim".

E ali havia parado minha experiência com a série. No entanto, recentemente, depois de me ver chegando aos 40 sem a mínima ideia sobre se existe realmente um porque para eu estar nesse planeta, cansada de passar a vida fazendo trabalhos para os outros e sem me sentir desafiada, valorizada, ou satisfeita com o que estou fazendo, eu cheguei a conclusão que ver essa série por completo e ver como profissionais de áreas afins lidam com seus trabalhos, seria interessante pra refocar a atenção, a motivação, ou mesmo a ética de trabalho. No entanto, desde então, a cada episódio uma sessão de soluços vem junto.

Se você já pensou em assistir a série e ainda não deu uma chance, não se assuste: ela não está nem um pouco estruturada para provocar desidratação ocular, como um comercial de final de ano do Itaú, por exemplo -- e mesmo para esses, pensar nos lucros bilionários da família acionista, sem nenhuma dedução de impostos, costuma fazer você segurar as lágrimas rapidinho a cada comercial.

Admito, a reação atual a Abstract é um caso 100% pessoal. Um misto de desilusão com tristeza (mas não precisa ficar apreensivo por mim, só dura durante o episódio). Os criadores do documentário escolheram pessoas "no topo" de suas profissões, pessoas que alcançaram mais do que a maioria dos mortais nos mesmos ramos vai conseguir... E eu acho que isso não está "interagindo" muito bem com a minha crise de meia idade.

Por mais que eu acredite, assim como Gary Vaynerchuk, que quem tem 40 anos hoje ainda tem pelo menos 30 anos pela frente de trabalho -- o que, em tese, daria pra desenvolver toda uma nova carreira do zero -- eu não acredito, no nível individual, que eu tenha tanto tempo. Ou seja, quando você tem 20 anos e assiste uma série como Abstract, você pode olhar e pensar "É assim que eu quero ser". Aos 40, você assiste e pensa "É assim que eu nunca serei" -- e o impacto não é tão "gostosinho".

Além disso, algo que tem acertado o ponto "macio" do meu coração com mais força que deveria nos últimos anos é ver pessoas que estão fazendo aquilo que elas "vieram aqui pra fazer" -- eu sei que há controvérsias morais, sociais, filosóficas para isso -- e que poderia se discutir semanas num bar sobre o tema -- mas existe um "brilho" em ver pessoas realmente conectadas com aquilo que fazem que é difícil ignorar uma vez que você já o viu... Já vi isso algumas vezes ao vivo na vida. Vejo diversas vezes em Abstract. Não vejo nem de longe no espelho. Então acaba "machucando".

Isso significa que vou parar de ver a série?
Claro que não -- estou quase finalizando a primeira temporada, e acho que o masoquismo é um traço marcante da minha personalidade mesmo.

Mas no fundo, é como uma citação de Mae West que um dos meus autores preferidos (Tim Ferris) gosta de citar:

“Those who are easily shocked should be shocked more often.”
("Aqueles que ficam facilmente chocados devem ficar chocados com mais frequência.")

Então enquanto dá, eu vou cutucando os meus locais "doloridos" com Abstract pra ver o que acontece.

Abstract: The Art of Design | Official Trailer [HD] | Netflix
https://youtu.be/DYaq2sWTWAA

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Você é o que você escuta!


Acordei com "Buddy Holly" do Weezer repetindo na cabeça ao infinito. É algo que, admito, faria mais sentido se duas coisas fossem válidas: eu conhecesse bem essa música, e eu gostasse de Weezer. Não é que eu "desgoste" de Weezer, mas é uma daquelas bandas "da sua geração" que não te pegaram na época e você acaba escutando mais tardiamente porque vagamente te lembra de outros tempos...

Tive que ficar um bom tempo ruminando pro Midomi (um site bem legal que deixa você cantar partes ou o tom de uma música pra te ajudar a lembrar a música) pra saber que era essa música que estava na minha cabeça -- e não consigo deixar de ficar surpresa que em algum confim secreto do meu subconsciente, tem uma gavetinha dedicada a Buddy Holly do Weezer.

O que me lembra que a minha relação com a música tem que ser retomada com mais carinho. No ano passado, depois de uma série de dias "perdidos" nas minhas ansiedades, eu acabei percebendo que muito daquilo poderia ser apaziguado escutando minhas músicas favoritas. E aí percebi que -- segundo a própria retrospectiva do Spotify -- eu escuto muito pouca música atualmente. Fui de uma adolescente que escutava de 4 a 6 horas de música por dia, a uma adulta (há controvérsias sobre esse marco) que mal escuta música alguma.

É claro, eu trabalho -- nos freelas, nas coisas pra casa... E reconheço que isso atrapalha. Há um pouco mais de dez anos atrás que eu fazia funções mais "estéticas" nos projetos, era mais fácil trabalhar escutando música. Depois que o trabalho ficou mais voltado pra narrativas, envolvendo ler o texto dos outros, reescrever, produzir conteúdo etc., eu preciso de um espaço mental "limpo" que não permite música de fundo (e que mal consegue lidar com o YouTube Kids e Netflix da minha filha).

E parece que quanto menos música você escuta, menos viço na vida. Admito que quando eu vim morar com meu marido, foi uma benção vir morar com uma pessoa quieta -- eu estava surtando na minha casa e com a TV explodindo em altura sempre, sempre ligada, sempre barulho -- então poder ficar em uma ambiente só com o som natural dele foi uma maravilha. Mas depois de uns anos isso se tornou um pouco usual demais. E hoje em dia eu me sinto constrangida em escutar minhas músicas no volume que eu gostaria -- e atrapalhar os pensamentos do marido (o que nos leva a um segundo tópico a ser explorado no futuro: porque homens e mulheres em casa, 24 x 7, não é vida... Mas fica pra outra hora).

Acho que como o desenho, a leitura, os filmes -- e as outras coisas que me deixam realmente FELIZ, essa é uma das coisas que eu tenho que ser mais cuidadosa em efetivamente inserir na vida, regularmente.

Não recomendo ficar com essa música na cabeça, mas se quiser saber o quanto eu estava perdida, segue (o detalhe é que eu acho essa música profundamente irritante, gostando só de quando fica próxima do refrão):
Buddy Holly - Weezer

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Não escrevo porque triste!

Photo by Kinga Cichewicz on Unsplash
Tenho procurado diversas explicações para os blogs estarem às moscas. E quando a gente procura, a gente acha: falta de pauta, linha editorial mal definida, dificuldade de aplicar "ass to the chair" e escrever, a conjuntura nacional, a falta de "leitores" pra blogs etc., etc. Quando a gente procura justificativas, elas borbulham como oxigênio em água fervendo... Mas a verdade... A verdade costuma ser única. A minha: não escrevo porque triste.

Esse endereço já foi o local de profundos desabafos. Mas eu não faço mais isso -- ou me comprometi a não fazer mais isso. Não que eu tenha amadurecido muito, mas há alguns anos cheguei a conclusão que "xingar muito na internet" é oferecer ouro demais aos bandidos. É dar para qualquer envolvido na história uma visão sobre apenas um aspecto da sua explosão, que normalmente é usado, convenientemente, para extrapolar todo o resto. Quem explode, sempre perde a razão, por mais razão que tenha. E eu fiquei cansada de dar uma "liberada" de responsabilidade para pessoas mutuamente envolvidas nos problemas e suas origens.

Tenho dito para mim mesma que esse é o motivo pelo qual não escrevo mais -- que o meu maquinário é movido a ódio/raiva/urgência, e atualmente eu não deixo mais ele "ligar" com base nisso... Digo que "coloquei um filtro" e para a minha sanidade evito esses rompantes. Mas como eu disse, a verdade é outra: simplesmente não escrevo quando estou triste, e eu tenho estado triste na maior parte do tempo.

Não é que eu esteja clinicamente deprimida -- embora profissionais possam argumentar nesse sentido -- mas é que eu estou "desesperançosa com relação a vida". Cheguei num ponto onde tudo que eu imaginei para a vida não aconteceu. Tudo que no qual eu apostei deu errado. Em outros casos ainda me sinto profundamente "usada", e embora isso talvez não se sustente numa análise mais minuciosa da situação, eu não consigo "desver" esse abuso e superar; então eu simplesmente não acredito em nada em relação ao futuro. Nem nas pequenas coisas, nem nas coisas médias e definitivamente não nas grandes.

E eu gosto de escrever coisas minimamente irônicas.
Gosto de escrever coisas bem humoradas mesmo quando vindas de um lugar "trabalhado na raiva" -- como quando escrevi isso [aqui], por exemplo.
Mas eu não ando conseguindo ver o lado "irônico" ou "positivo" de nada.
Eu ando apenas existindo, um dia após o outro, procurando conseguir pagar as contas, fazer o mínimo para que a vida... siga.

Não há necessidade de colocar ninguém além de mim nesse modo "oh dia, oh vida, oh azar".
Então eu não digo nada.

Quando eu pensava em escrever, antigamente, lembrava muito do texto a seguir do "Rubem Braga", um dos meus textos preferidos...
Eu queria ser o escritor -- hoje em dia acho que estou mais para a menina.

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MEU IDEAL SERIA ESCREVER...
Rubem Braga.

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquele casa cinzenta quando lesse minhas história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse - "ai meu Deus, que história mais engraçada!" E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria - "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria  perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse - e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria, que o comissário do distrito, depois de ler minha história mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse - "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago - mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina."

E quando todos me perguntassem - "mas de onde é que você tirou essa história?" - eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim "Ontem ouvi um sujeito contar uma história..."

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

terça-feira, 5 de março de 2019

Eterno Retorno

Existem fetiches muito estranhos. O meu, desconhecido da grande maioria, talvez seja o mais traiçoeiro e prejudicial: voltar do começo e fazer "direito".

Já perdi a conta do número de encruzilhadas nas quais estive, mantendo a ilusão de que "se ao menos eu pudesse voltar, e fazer direito", as coisas não estariam como estão. E isso vai de habilidades de trabalho que eu lamento improvisar até as coisas mais cotidianas. Por exemplo: será que se eu tivesse feito todos os tutoriais de revistas que eu comprei e não li, se tivesse estudado os livros certos ou feito o curso X com extra zelo eu estaria agora lutando mensalmente para chegar ao mês seguinte? Será que eu tivesse aproveitado melhor a disposição de minha mãe e de minha vó tentando me ensinar como cuidar direito da casa quando tive chance eu não seria uma adulta um pouco mais funcional?

Parece que o passado guarda o segredo de tudo que poderia ser melhor hoje e não é. Se pudesse, então, ser combinado com a lucidez de hoje (já que o termo "sabedoria" seria um exagero perigoso), que fórmula mágica de alegria e sucesso eu não teria, não é mesmo?

Mas eu sei, profundamente, que é tudo ilusão. Como eu sei? Porque alguém que acreditasse realmente nisso, teria acordado motivada com o dia a frente, sabendo que hoje também é o inicio de algo que irá se desenrolar no futuro. Se eu acreditasse realmente nisso, não ficaria perdendo o tempo chorando as oportunidade perdidas porque estaria muito entretida construindo meu amanhã.

A verdade é que o presente e o dia de hoje são pequenos demais quando nos falta humildade. É fácil olhar para dez, vinte anos atrás e, ver como os pequenos esforços diligentes do passado poderiam ter acumulado em algo "grandioso". Difícil é olhar para as dez páginas lidas de hoje, o dinheiro poupado, o respeito a dieta saudável e acreditar na diferença que isso terá no futuro.

Queremos ser grandes, intensos, plenos -- mas nós desiludimos com a falta de glamour, reconhecimento e incentivo intrínsecos ao caminho.  Quero eternamente retornar, porque tanto desrespeito ao presente me fizeram não saber ao certo como foi que eu cheguei aqui -- e, embora seja muito doloroso admitir: se esse não é o presente que eu queria, é exatamente aquele que eu merecia. Isso dói.

***

Notas de sincronicidade: Logo depois de ver esses textos, eu acabei assistindo esse vídeo no YouTube. Disse exatamente aquilo que eu queria dizer.

If You Can’t Change Your Emotions Do This Instead | Hal Elrod on Impact Theory
https://youtu.be/g9yg5cDagJ0


sábado, 1 de dezembro de 2018

Imperfeitamente perfeitos...

Photo by Simson Petrol on Unsplash
Não é a primeira vez -- e provavelmente não será a última -- que eu falo do meu amor por cadernos... Sobre a minha necessidade de ter sempre um "escolhido" que atua como um misto de Bullet Journal, Common Place Book, Diário e Caderno de Estudos em um caderninho só, que segue cronologicamente. Mas hoje, folheando o atual, estava vendo como não existe arrependimentos no mundo do uso da papelaria colocada em ação, e como eu deveria aplicar isso em outros contextos -- tanto outros contextos de caderno (como sketchbooks) como outros contextos de vida em geral.

Retomando o histórico -- eu sempre utilizei um caderno geral de apoio, de forma mais ou menos dedicada... No entanto era uma coisa meio aleatória... Na minha cabeça de adolescente e jovem adulta, eu tentava fazer as coisas caber nas caixinhas certas: um caderno para cada matéria, uma agenda para compromissos, diários dedicados etc... Essas tentativas sempre tiveram resultados pífios em organização -- cadernos desatualizados, agendas que não eram atualizadas depois de fevereiro/março e diários que duram 04 anos ou mais, pq nem sempre a gente lembra de escrever.

No final do colégio, eu fiz uma experiência que, para o meu método de me organizar funcionou completamente bem -- aboli a tentativa de cadernos por matérias, de fichários com divisórias e comecei a usar um caderno grande, cronologicamente preenchido. Olhando em retrospectiva dá até uma certa vergonha do quão nerd eu era (era?) pelo nível de peso na consciência de estar fazendo "tudo errado" -- mesmo que na prática o método estivesse funcionando muito bem.

Alguns anos depois eu fui trabalhar em uma empresa onde manter um caderno com as coisas do dia a dia era praticamente uma obrigação, então isso só reforçou a prática -- embora eu nunca tenha pensado, deliberadamente, em como isso afetava a minha produtividade, organizava minhas ideias e tudo o mais...

Então, há uns 6 anos atrás, quando eu me dei conta que estava grávida, comecei a utilizar um caderninho da Daiso Japan, num formato bem legal, para organizar de consultas médicas a preparação e compras -- e de lá eu não parei mais... São seis anos com sempre um "amigo pega tudo" me ajudando a organizar a vida -- e se ela não está nas melhores das organizações, a culpa não é deles...

"Ok, ok Priscilla... Tudo muito interessante (ou não) mas... Qual a novidade sobre tudo isso?"

Pra começar, depois de utilizar cadernos da Daiso (de 6,90 cada) por alguns anos, eu acabei tendo coragem de utilizar cadernos da Pombo Lediberg (14,90) e da Miniso (19,90) -- o aumento dos valores do cadernos não foi aleatório -- mesmo contendo coisas como listas de tarefas domésticas ou listas de compra do supermercado, esses cadernos ficam comigo por pelo menos 4 meses -- e precisam ser resistentes o suficiente para sobreviverem a todo tipo de situação e transporte... Então a escolha de uma caderno mais caro e melhor a cada vez foi natural... Mas atualmente eu chutei o pau da barraca....

Estou usando um caderno Moleskine de uma coleção exclusiva que embora eu tenha pago 12 dólares em uma época de dólar a menos de 3 reais, atualmente está mais de 120 reais para comprar onde ainda existe... Ele já tinha começado a ser usado como diário há alguns anos e ficado numa prateleira... A tensão de "estragar" não permitia usar... Mas como agora eu estou mais ativa com os cadernos, não tive pudores -- lacrei as páginas já usadas com durex, e comecei o caderno como esse meu BuJo específico dalí pra frente... Já estou com ele há cinco meses, e acho que ele ainda dura mais uns 3...


"Agora tenho certeza... Não entendi nada sobre esse post..."

Calma, calma amiguinho -- é simples, eu só precisava contextualizar um pouco. O caso do caderno, como qualquer coisa da vida é: é difícil se arrepender do que foi feito na melhor das nossas capacidades... O arrependimento fica reservado para aquilo que poderia ter sido, e não foi...Esse caderno ficou sentado na estante durante anos pq era "precioso" demais para algo mundano... Agora que ele foi para o ápice das coisas mundanas, me dá uma alegria tremenda olhar as páginas preenchidas, por mais toscas que sejam... Olhando esses cadernos, eu tenho uma documentação tão rica da minha vida, algo que eu jamais teria conseguido se eu intencionalmente tivesse tentado documentá-la.

É a mesma coisa com meus sketchbooks, embora eu ignore na maior parte das vezes -- por mais toscos que sejam os rabiscos, é sempre muito gostoso rever o que foi feito... É uma sensação muito, mas muito diferente, da sensação de olhar as pilhas de sketchbooks brancos que esperam uma habilidade perfeita para serem gastas.

Os copos de cristais...

Minha mãe conta uma história, daquelas que correm por aí num misto de lenda urbana e sabedoria popular, sobre "copos de cristal". Sobre uma mulher que guardava seus copos de cristal como um tesouro.... Guardava para usar em um dia de festa, e nem assim os usava... Então ela morreu, o marido casou de novo e... a mulher nova colocou os copos para bater, e acabou quebrando todos rapidamente (tenho certeza que essa história tem um imenso número de variações, mas o espírito é esse).

Quantas coisas a gente guarda, esperando o momento perfeito, o dia perfeito, a situação perfeita -- e acaba não usando? Quantas coisas a gente espera para fazer ou vivenciar o dia que tiver a quantidade de dinheiro necessária, o peso necessário, ou o quer que seja? Quantas coisas a gente espera que sejam "perfeitas" para serem vividas, ignorando que se a gente olha pra trás, os arrependimentos estão quase sempre atreladas as coisas não vividas, não feitas -- ou que demoramos demais para fazer e perdemos o trem da "melhor tentativa possível".  Por que nos recusamos a ser simplesmente... Perfeitamente imperfeitos?