quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Atrás de toda acumulação só há duas coisas: medo e escassez.

Photo by Savs on Unsplash
Passei boa parte da terça-feira de carnaval arrumando uma prateleira ao lado do meu cantinho de trabalho. Era a última prateleira que faltava dar uma geral (dessa estante, tem mais duas na fila). A arrumação era fundamental: cada vez que procurava alguma coisa por ali — ou simplesmente olhava em sua direção — algo sempre caia na minha cabeça… Ou no computador… Ou mais temível e provocador de palavrões, no pé. Mais de uma vez eu tive que segurar uma reação em cadeia de livros, cadernos e grampeadores despencando. Era como trabalhar ao lado de uma área com potencial risco de avalanche.

Rearrumar áreas entulhadas que você não visita há tempos sempre nos traz doces recordações. Reencontrei cadernos antigos que ainda esperavam atribuição de funções e uso. Reencontrei livros que eu estava tão animada pra ler… Anos atrás, mas ainda assim interessantes. E é claro, encontrei livros que só alguns momentos fora de si explicam (como um “Contabilidade ao alcance de todos”, que deve ter me pego em um momento de inspiração para controlar, com propriedade, do operacional da antiga sociedade).

Fiz as contas. Só nessa prateleira, depois de organizada, existem 108 livros, dos quais eu já li aproximadamente 30. Mesmo com a minha meta de leitura atual para 2018 sendo de 72 livros, nem em um ano eu conseguiria dar conta só dessa prateleira. Isso significa que você, assim como eu, deve estar se perguntando: pra que tanto?

Não “me traz alegria”.

Ter tanto de algo que você gosta — no meu caso, livros; cadernos, sketchbooks e papelaria em geral — deveria ser algo animador… Saber que independente do que aconteça, se eu não puder comprar mais nenhum livro a partir de hoje, ainda teria anos de leitura estimulante pela frente antes que isso me afetasse deveria ser motivo suficiente para estar contente com a visão de tantos livros e estar satisfeita com eles. Mas aí está o pulo do gato: por que acumular livros pensando “caso algo aconteça e eu não possa comprar mais nenhum livro?”.

Pensando bem, deixar que isso oriente  suas ações é uma tristeza. Mesmo que eu estivesse lendo como uma máquina de leitura, 2 livros por semana — ou seja, 10 livros por mês — existe algo chamado “biblioteca pública” (não recebem o apoio que merecem, é claro, mas ainda bravamente resistem). Existe outra coisa chamada SEBO, onde por 50,00 reais é possível sair com 10 bons livros, fácil. Existe algo chamado “Kindle Unlimited”, onde por R$ 19,90 mensais você aluga até 10 bons livros por vez (se ler mais, é só devolver e baixar mais)… Então, sérião, por que eu estou entulhando a casa para me precaver de dias tristes e chuvosos onde eu não possa nem caminhar até a biblioteca ou gastar R$ 20,00 por mês em livros? Se um dia eu tiver em um perrengue desses será que é de livros mesmo o que eu mais sentirei falta? Será que faz investir em preocupação desse jeito?
“Tenho notado que a preocupação é como rezar para o que você não quer que aconteça.”
Robert Downey, Jr.

Nem só de livros viverá a mulher…

Embora isso seja um tema que eu trate mais no meu blog sobre desenho, o Sketchblock, é algo que se encaixa aqui também — a mesma situação se aplica a sketchbooks e cadernos em geral. Eu utilizo um caderno a cada 04 meses na minha combinação de Commonplace Book e Bullet Journal. Ou seja, eu gasto uma média de 03 cadernos por ano nisso… Precisava de uma fila de 30 pra me sentir segura?

Recentemente eu fui na Miniso, uma concorrente da Daiso que chegou ao Brasil. Fiquei apaixonada por alguns cadernos que eles tem por um preço muito, mas muito atrativo mesmo. Uma linda versão do modelo “Moleskine” pautado, com 120 folhas e capa acetinada em tons pastéis por R$ 18,00 — algo muito vantajoso já que o Moleskine original pode sair de R$ 60,00 a 120,00 (diferença entre importar e comprar por aqui) e uma versão semelhante da Pombo Lediberg pode custar R$ 49,00 (na Kalunga, por exemplo). Então eu comprei 2 para fazer diário… Embora ainda falte umas 40 folhas para o meu diário atual terminar. E eu já tivesse uma fila de mais 03 Moleskines para substituí-lo. Tinha necessidade? Claro que não… Mas podia acabar uma oferta vantajosa desse jeito — e isso ainda é o que me dá formigamentos de voltar lá e comprar mais duas cores… Afinal quanto tempo vai demorar pro pessoal descobrir que ele vale muito mais do que estão cobrando? E se acabar?

E se não for suficiente?

Nem precisa dizer que eu sou uma acumuladora. Não dessas que guarda jornais velhos e caixas de pizza vazias, mas das que estão sofrendo com compulsões por compras, justificadas  por noções de “só para garantir…”. Demorou para eu perceber que isso não é motivado pelo meu amor por papelaria ou livros. Isso é motivado por medo e escassez. Medo de não ter, medo de não ser suficiente, medo de que no futuro, quando eu realmente for precisar daquilo, não ter, ou não poder comprar. Eu poderia analisar ao infinito momentos na infância e adolescência onde estar na ponta do “não tenho e não posso” foram experiências fortes, nesses e em outros ítens, mas não é necessário — principalmente porque eu não sou mais criança, nem adolescente. Eu sou uma mulher adulta e capaz, que não deveria estar entulhando a casa de reservas “pro inverno” e sim investindo nas plantações. Faz sentido?

Mentalidade de Escassez.

A coisa mais interessante sobre acumulação é que você faz para se sentir seguro, mas não funciona assim. Saber que eu tenho materiais e sketchbooks, por exemplo, para desenhar por 10 anos sem ter que gastar um tostão não me dá a segurança de gastá-los. Pelo contrário. Algo dentro de você sempre diz: “E se forem 11 anos?”. A mentalidade de escassez acaba funcionando como um buraco negro onde tudo aquilo que você joga nunca é suficiente. Você está lá, investindo seu presente na expectativa de estar segura em um dia chuvoso — que pode nunca chegar — enquanto vive o presente tropeçando em coisas que não estão sendo utilizadas na sua potencialidade, acumulando pó, envelhecendo, sem valor para ninguém.

Por uma questão de lógica, faria muito mais sentido deixar de gastar R$ 30,00 em um livro hoje e investi-lo em algum lugar para que no futuro, havendo a necessidade e o momento de efetivamente ler você simplesmente comprasse o livro não é mesmo? Por que empatar agora um recurso que não será utilizado? Mas lógica não é o forte do acumulador — forte é a noção de que se você não comprar aquilo AGORA talvez nunca mais consiga, não naquele preço… E mais uma vez, como disse anteriormente em outro post, aquela “possibilidade” encerrada no ítem (aprender algo novo, ser uma nova pessoa… Alguém que põe em prática aquele determinado conhecimento) não ser realize.

Escassez versus Prosperidade.

No momento, para sair de uma mentalidade de escassez, seria suficiente ter apenas o estritamente necessário — e saber que, caso essa necessidade se expandisse, eu seria capaz de simplesmente ter à disposição os recursos necessários para resolver o assunto. Escassez, além de medo, é falta de fé — na generosidade do Universo (dentro da visão divina ou não que você decida adotar), na sua capacidade de conquista, na sua flexibilidade e adaptação. Estar preparado para um dia chuvoso pode realmente ser importante (planos de saúde, aposentadorias e investimentos vivem disso)… Mas não esquecer que é sol lá fora e que sua maior preocupação no momento deveria ser viver plenamente, também é.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Eu Deveria Estar Limpando…

Pensamentos sobre acumulo, organização, limpeza… E como eles podem se transformar em uma pedra no sapato dos seus sonhos.
Você já leu “A Mágica da Arrumação”? Eu li, como eu já disse há pouco tempo atrás. Há aproximadamente 7 anos, desde quando eu passei a viver com o meu querido marido/namorado/pai da minha filha, eu tenho lido muitos livros sobre organização, produtividade, limpeza doméstica. Antes disso eu também lia muito sobre produtividade — mas a minha ideia principal era “Como fazer mais coisas?”. Depois de começar a viver a dois (e agora 3) a pergunta principal se tornou “Como fazer o mínimo pra não morrer soterrada na bagunça e vivendo de ifood?’. E claro, ler a respeito desse tipo de coisa é sempre muito mais fácil do que realmente botar a mão na massa (e de preferência de luvinha, que eu tenho nojinho de sujeira, rs).

Oportunidade e Ameaça.

O livro da Marie Kondo me vem a cabeça porque ela tem uma posição diametralmente oposta em relação ao que a maioria das pessoas diz sobre organização (em especial sobre a parte de descarte): ao invés de fazer um pouco por dia, faça tudo de uma vez. Por setores ou temas, é claro, como ela sugere, mas tudo de uma vez — pois caso contrário você vai desanimar, ver uma pequena melhora, e começar a bagunçar tudo de novo.

Esse é o tipo de ideia que causa curto circuito no meu cérebro. Um lado de mim entende perfeitamente a necessidade de um comprometimento desse: fazer mudanças reais, fazer mudanças significativas. Porque eu me conheço e o “follow up” de tarefas recorrentes não é o meu forte. Uma vez que o desânimo ou outras prioridades tomam conta, eu vou deixando as coisas para trás e não faço mais absolutamente nada.  Por outro lado — e aqui que o curto circuito começa — isso casa perfeitamente com a minha tendência a procrastinação… Se fazer um pouco por dia não adianta, melhor não fazer nada… Ou melhor ainda: vamos adiar todo o processo para um dia que eu posso dedicar um dia inteiro — ou quem sabe — um final de semana inteiro a tarefa do descarte… Aí todo o resto que vem na sequência (limpeza e organização) poderão ser feitos de maneira prática e rápida.

Descarte, limpeza e organização não são a mesma coisa.

Parece óbvio dizer isso mas… Descarte, limpeza e organização não são a mesma coisa. Por muito tempo eu fiquei envolvida na dupla “Organização e Limpeza”, e não prestei atenção ao que era essencialmente óbvio: tem horas que não é possível organizar, é preciso descartar. Antes disso, eu sofria de “Caixite”, uma inflamação cerebral severa que faz você acreditar que todos os seus problemas de organização serão resolvidos com a compra e distribuição de todos os seus itens em caixas organizadoras. Isso é o que acontece com pessoas como eu que acreditam que todos os sonhos e impulsos que tem devem ser perseguidos imediatamente, com o mesmo nível de dedicação.  Teve vontade de tocar guitarra? Compre uma guitarra… Mas não esqueça de comprar o amplificador, o pedal, livros de instrução. O que? Agora está com vontade de fazer tricô? Já sabe: agulhas de todos os tamanhos, para todos os tipos de lã e é claro… Muitas lãs. Isso pode levar você, facilmente a dois locais: Caos e SERASA (acredite em mim, pois eu já cheguei aos dois).

Resumindo:
  • Descarte: se livrar daquilo que você tem em excesso, não quer mais ou não precisa (pode ser doando, vendendo ou simplesmente, dependendo do estado, jogar fora).
  • Organização: é o velho “cada coisa em seu lugar” — normalmente quando as coisas não tem um lugar específico, ou é porque precisam ser organizadas (e ter um lugar fixo atribuído) ou descartadas (ver tópico anterior).
  • Limpeza: atividade ROTINEIRA de manutenção dos ítens organizados e seus entornos.

Por que os acumuladores acumulam?

Se você já assistiu na TV a Cabo a qualquer episódio de “Acumulares” e não compreende como as pessoas chegaram aquela situação, eu lhe explico: pessoas com tendências acumuladoras como eu não juntam coisas… Elas juntam POSSIBILIDADES. E é por isso que é tão difícil descartar as coisas. Assumir que talvez não tenha sido uma boa ideia comprar uma guitarra, um amplificador, pedais etc., nem é a parte mais difícil.  Doar ou vender esses ítens e assumir que esse “pedacinho de possibilidade” da sua vida se encerra é. Uma vez que os itens estejam fora de casa, eu não sou mais a mulher que pode aprender a tocar guitarra assim que quiser… Eu sou a mulher que quis (passado) e não rolou (desistiu).


E então… Seu sonho é limpar?

Existe uma citação no rodapé desse blog que eu gosto muito: "That which you cannot give away, you do not possess. It possesses you" (Ivern Ball), algo como: “O você não pode dar, você não possui. Ele possui você”; ou seja, você pode pensar que tem muitas coisas que terão utilidade e serventia um dia mas, por enquanto, quem serve essas coisas é você, que re-empilha as coisas por aí, compra caixas, limpa, guarda, carrega em mudanças — e na grande maioria das vezes, sem nenhum proveito.  A natureza do item nem sequer importa. Não há diferença entre acumular sapatos, livros ou potes de sorvete: se você está guardando coisas que não está utilizando, elas não tem nenhuma serventia, porque as coisas se realizam em sua utilidade e não na sua possibilidade.

Eu, por exemplo, tenho mania da acumular livros. Uma pesquisa rápida me mostrou que em 2017 eu comprei 73 livros (entre livros físicos e ebooks). Como eu acompanho anualmente minha meta de leitura, posso lhe dizer em quem 2017 eu li 28 livros… E não, nem são 28 livros desses 73 (acho que nem metade foram livros comprados em 2017). Por que eu faço isso? Mais uma vez, porque livros representam POSSIBILIDADES. Eu compro livros de literatura, livros sobre (vamos rir) produtividade e organização, autodesenvolvimento, desenho e pintura. Cada livro que eu compro eu acredito que irá e trazer em valor acumulado de vida maior do que o valor pago… Mas o detalhe é: apenas se ele for lido. Caso contrário é apenas dinheiro que saiu da minha conta e deixou de somar pra uma viagem ou passeio legal, por exemplo — e agora está empilhado em um canto da casa esperando tempo e atenção.

E quando o final de semana chega, como hoje, e as cobranças mais recorrentes do trabalham cessam por um momento, será que eu aproveito para perseguir meus sonhos ou relaxar? Será que eu paro para desenhar, ler ou… Tentar tocar guitarra? Não. Porque a bagunça e o caos divergem minha atenção… Eu sinto que deveria estar descartando itens, organizando as coisas, fazendo limpeza para AÍ, quando tudo estiver em ordem poder fazer alguma coisa com paz e sossego. Não é louco demais? Correr para ganhar dinheiro, para comprar coisas, que vão ficar ocupando espaço até que você se canse? Até que um dia, no seu tempo livre, você tenha que se dedicar para separá-las, descartá-las e limpar a casa?

Acho que por definição eu jamais seria uma pessoa “minimalista”. Mas eu entendo o apelo. Queria chegar em dia como hoje, com a casa inteira arrumada, fazer comida e só ter uma loucinha pra lavar, colocar uma carga de roupa pra lavar e ter encerrado as atividades “pesadas” do dia, fazer um chá, sentar no meu sofá com um bom livro e ler a tarde toda… Depois deixar o livro, pegar meu sketchbook, alguns materiais de desenho e rabiscar um pouco.. Ao invés disso eu estou aqui pensando em como organizar tanto livro, onde guardo tantos sketchbooks (ou gastando neurônios em saber quantos seriam suficientes… Para um ano? Para a vida?). É difícil abrir mão de coisas que você adquiriu em troca de horas de vida (trabalhadas). Mas quando é a hora de cortar amarras e reclamar de volta apenas uma parte: a vida?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Rotina, Eu Te Amo!!

Questionamento constante: por que eu tenho a impressão que conseguia produzir muito mais na vida durante a adolescência/início da idade adulta do que, digamos, nos últimos 10 anos!? Uma análise rápida e superficial diria: Obrigações. Uma análise mais profunda e precisa: Rotinas.

Eu sei, eu sei: A palavra “rotina” tem uma má reputação. O “cair na rotina” se tornou praticamente sinônimo de uma morte lenta e dolorida para qualquer atividade ou relacionamento. Se você adicionar palavras com disciplina, ou hábitos então… Tem gente que irá arrancar os cabelos pensando que quero formar algum tipo de culto autoritário.

Para ouvidos “criativos”, “livres” ou “rebeldes”, mencionar o combo: rotina-disciplina-hábitos é quase como meter uma estaca no meio do peito e pedir que respirem… No entanto, com raras exceções, estou cada vez mais convencida de que não existe real criatividade, liberdade ou rebeldia fora desse pacote. O que a maior parte das pessoas chama de criatividade e liberdade, sem estabelecer hábitos e rotinas com disciplina, são apenas espasmos da vontade, bem sucedidos algumas vezes, ineficientes na maioria, mas que não fazem a pessoa avançar nem meio centímetro além da sua zona de conforto. É o princípio de uma vida pequena, onde o provável começa a se tornar sinônimo de tudo o que é possível, e simplesmente não se vai além do que os ânimos do dia nos impelem a fazer. É aquele sentar na calçada na vida e ficar esperando a inspiração chegar… Vamos ser claros. Ela não chega.

Mel Robbins on Why Motivation Is Garbage | Impact Theory

https://youtu.be/LCHPSo79rB4


Há algum tempo, por conta do meu interesse em organização das tarefas de casa, eu encontrei o blog “A Slob Comes Clean” - depois de ler o livro “How to Manage Your Home Without Losing Your Mind” e rolar uma identificação completa que me fez correr para podcast e todo resto. O encontro do blog e do podcast foi muito útil, pois eu consegui me identificar com um ítem muito especial, algo que a autora chama de maneira divertida de TPAD - Time Passage Awareness Disorder (algo como "Transtorno de conscientização da passagem do tempo"). Segundo ela, se ela não colocar alguma forma de controle como um alarme, um checklist de atividades etc., ela pode perder muito tempo em alguma coisa improdutiva ou perder a noção de que faz muito tempo que ela não realiza uma determinada ação.

Bingo! Achei aí parte do meu problema — e ainda tenho uma consulta de dentista desmarcada no final de novembro e ainda não remarcada, porque parece que foi ontem que isso aconteceu, para comprovar. Quando eu era mais nova, existiam uma série de sistemas em funcionamento que garantiam minha produtividade. Se eu não tinha smartphones com alarme, eu tinha Pai e Mãe pentelhando por atividades específicas. Eu tinha horário de escola, datas de provas e trabalhos, pessoas para responder (especialmente grupos se as coisas não fossem feitas), depois trabalho fora de casa, com horários e análises de desempenho etc.


As coisas começaram a sair do controle mesmo quando na Escola/Faculdade eu passei a ter que responder sobre o meu desempenho apenas para mim mesma, depois virei sócia de empresa (cadê o chefe?), mudei com meu namorado (e me tornei responsável pela minha própria rotina), depois comecei a trabalhar em casa, tive filha… Ou seja, rotinas, hábitos e disciplinas continuavam fundamentais mas agora eu era responsável tanto por estabelece-las quanto por executá-las… Basicamente, deram a chave da cadeia para o bandido.


Durante muito tempo eu resisti a estipular rotinas mais fixas… Resisti por tanto tempo, que o “CHAOS” (a “Can’t Have Anyone Over Syndrome” do método FLY Lady) se estabeleceu na vida doméstica, se estabeleceu na vida profissional e nem vou entrar em detalhes sobre a vida parental. E é difícil gente, é muito difícil constatar isso e assumir que você não vai mudar sua forma de operar na noite para um dia, com o balançar de uma varinha mágica… Que vai ter que adotar pequenos passos, diariamente, regularmente, dia após dia (percebeu o reforço?) até que qualquer melhora possa ser sentida de maneira real.


Atualmente eu começo a ver uma luzinha lá no final, do final, do final do túnel — espero que não seja um trem vindo em minha direção. A primeira mudança prática que eu fiz foi dividir o dia em suas principais áreas de atuação (Casa, Trabalho, Família e Pessoal). Já sabendo que eu gosto de alguma liberdade nas minha rotinas (caso contrário eu jogo contra mim, transformo as rotinas na figura de autoridade que eu tenho que combater), eu criei “Faixas de Horário”:

  • Das 06:00 até as 08:00 é meu horário pessoal. Nessa faixa de horário  eu posso fazer toda aquela rotina matinal dos sonhos (meditar, ler, escrever, desenhar, fazer exercícios) ou simplesmente me render a preguiça e dormir até mais tarde (mas pelo menos já sabendo de antemão do que eu abri mão no dia.
  • Das 08:00 até 14:00 é o horário de casa e da família. Rotinas da filha, de coisas pro marido, fazer comida, arrumar o que eu for arrumar (mesmo que não seja muito), supermercado, padaria, compras etc. O que deve ser feito para manutenção do dia a dia é feito nesse horário… Ou fica para o dia seguinte. 
  • Das 14:00 às 19:00 é o horário de trabalho. Estou lutando com a ideia de que eu devo ser mais produtiva em menos horas, então meu ideal ainda é reduzir o trabalho para 04 horas diárias, especialmente porque eu trabalho 6 dias por semana agora que o marido trabalha em escala e só tem um dia de folga por semana em casa. Se for pra trabalhar oito horas diárias por dia como trabalhar fora, melhor trabalhar fora com uma série de outros benefícios.
  • Das 19:00 até as 24:00 é um mix. Se tudo correu bem nas demais faixas, nesse horário eu me dedico exclusivamente para as rotinas noturnas da Lívia. Se deu errado, eu encaixo tudo o que foi possível aí… Embora o meu foco, no futuro seja mesmo focar na filha e encerrar meu dia bem (ler, assistir uma série etc.
Apenas esclarecer essas distinções e tentar respeitá-las já foi suficiente para algumas melhorias — nem que seja apenas a melhoria de parar de reclamar comigo por não ser capaz de tentar fazer caber São Paulo em Sorocaba (como diria minha Avó).  O próximo passo, que está parecendo fundamental para mim, é estabelecer alguns checklists de coisas básicas que precisam ser feitas em cada horário.

Falo em manter algum controle desse tipo:

@boho.berry
Talvez não necessariamente tão colorido, nem bonito — pq acho que seria difícil de manter, mas algo que torne visível a frequência e as atividades realizadas. Espero continuar caminhando nesse sentido.

Livros Sobre Rotinas e Hábitos que li, amo e recomendo:

sábado, 6 de janeiro de 2018

Vamos dizer Adeus pro excesso de tudo aquilo que não queremos

Novidades… Estou com deficiência de novidades, se é que é possível — meus problemas, minhas questões, minhas preocupações são as mesmas há tanto tempo que eu não consigo deixar de sentir um “peso”… Como diria o “Biquini Cavadão” (sim, eu sou velha, rs): “Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça”.

Biquini Cavadão - Impossível
https://youtu.be/ny1mfGBSZCc


Mas para descobrir novas terras, é preciso adotar algum tipo de orientação — especialmente quando você não faz idéia de para onde ir… A minha orientação, como de antigos navegadores, são as “Três Marias”, rs — a primeira delas: Marie Kondo.

Faça uma busca rápida por Marie Kondo, e resultados não vão faltar. Algumas pessoas são fãs de carteirinha (categoria na qual eu me encaixo), outras odeiam firmemente. No entanto, ainda estou pra encontrar uma crítica negativa a sua proposta de manter apenas aquilo que "lhe traz alegria", que realmente tenha pego a essência da coisa. Não porque essas pessoas sejam "intelectualmente incompetentes", mas porque a mensagem dela não toca tão fundo, como toca para pessoas como eu -- ou seja, são pessoas que nasceram naturalmente organizadas, capazes de nunca acumular tranqueira e que realmente não entendem como isso não é a regra e a lei natural para todos os demais mortais.

Li "The Life-Changing Magic of Tidying Up" aínda em ebook, em inglês, no kindle, muito antes da hype do método KonMari (como ficou conhecido seu método de organização) tomar conta de blogs, vlogs e timelines de Facebook... Fiquei tão apaixonada, que quando a Sextante publicou o livro em português (A Mágica da Arrumação), comprei de novo pra poder ler, grifar, anotar -- coisas que eu só faço com os livros que eu tenho absoluta certeza que sempre serão meus, que não vou vender, doar ou emprestar.

Mas sabe por que eu sou tão apaixonada por essa mulher? Não é porque eu tenha virado a rainha do minimalismo — além de estar anos luz longe disso, essa nem é a proposta do KonMari, algo que muita gente confunde — mas porque ela me ofereceu um framework para lidar com o meu problema com tralhas... Tralhas físicas, emocionais, digitais, de todo tipo.

O "Isso me traz alegria?", pergunta que segundo o método você deve fazer enquanto segura em mãos cada um dos itens que está decidindo se mantém ou descarta, é uma pergunta que serve de orientação geral tanto pra descarte de calcinha bege manchada (situação quase que completamente hipotética — eu jamais teria uma calcinha bege), a compromissos, relacionamentos, atitudes etc.

Marie Kondo não transformou minha casa em capa de Casa Cláudia (ela é Personal Organizer, não é mágica), mas ela já foi responsável por muitos "deixa pra lá!" na minha vida — sem contar em uma ótima assistente em situações em que acumuladores compulsivos como eu tem mania de escolher quantidade ao invés de qualidade. Outro dia vi uma crítica meio simplista num vídeo, em que a mulher falava “Ah, meus utensílios de limpeza não me trazem alegria… Então eu deveria jogar fora?” — aí depois de revirar os olhos 3 vezes, fiquei com uma vontade inútil de explicar pra moça que não é assim… Todo mundo precisa de uma escova de banheiro… Mas há uma diferença significativa entre esses dois:



Colabore incluindo mentalmente nesse segundo algum desgaste e sujeira, porque eu não colocaria uma escova suja e nojenta nesse blog.

Não é uma questão financeira — não é uma questão de ter sempre os ítens mais caros e de luxo. É admitir que na nossa vida, quer desejamos ou não, existem limites, restrições: seu guarda-roupa é o limite da quantidade de roupas que você pode ter (se você, como eu , não quiser ter uma poltrona de leitura que não se senta há meses, coberta de roupas); suas 24 horas no dia são o limite de quantas atividades e compromissos você pode assumir. O método KonMari não prega o minimalismo… Sua ideia não é que você se livre de tudo e more em uma casa vazia: mas que você considere que cada coisa precisa ter o seu lugar, o seu lar, dentro da sua casa. Então ao invés de oferecer estratégias para que você faça caber mais em menos espaço, ou faça mais atividades mais rápido no tempo que tem ele lhe lembra: mantenha apenas aquilo que lhe traz alegria, que faça sentido para você.

Meu exemplo pessoal são meus “livros de cabeceira”. O Bom Senso S.A. (Sociedade Anônima que palpita em tudo que deveríamos fazer e como) diz que “livros de cabeceira” é algo de número maior que 2 (para permitir o plural) e menor que 04, 05 que você mantém na cabeceira para leitura… Mas os meus livros de cabeceira estão atualmente algo assim:


Os livros deitados são aqueles que fazem parte da lista TBR (To Be Read) de Janeiro… Os demais estão na fila sem data marcada. Eu gosto de vê-los assim — isso me traz alegria; diferente das pilhas encostadas nas estantes que eu vejo quando vou pra sala. Faz ver que eu tenho muito o que ler, e muita leitura interessante para esperar também. Tem bastante coisa? Certamente… Mas cada uma delas está em seu lugar, e me deixa feliz como está.

Aí eu me lembro que é Janeiro, que o resto da casa poderia ser assim também… Eu só preciso me tornar mais forte e comprometida em me livrar de tudo aquilo que está aqui porque eu comprei, porque gastei dinheiro e agora me sinto uma idiota de me livrar, mas que absolutamente não faz sentido para a pessoa que eu quero ser.

Conto com o KonMari para isso… Vamos ver.

Livros da Marie Kondo:


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Definindo Intenções

Estou com dificuldades de definir intenções para 2018. O final do ano de 2017 foi complicado, com uma sensação de sobrecarga com a qual eu não consegui lidar... E não consegui deixar de carregar essa sensação para 2018... Começando tudo num amontoado de afazeres e coisas por fazer. Nesse ritmo é difícil abraçar a ideia de "Ano Novo, Vida Nova".

Sinto uma certa reticência em estabelecer resoluções -- enquanto eu não fizer isso, posso sentir que vivo num limbo de possibilidades, onde tudo pode ser escolhido, tudo pode ser feito. Depois de fechado o pacote, passo para uma conhecida e nada glamourosa fase em que é fundamental fazer atividades regulares, pequenas, que ás vezes não dão a mínima sensação de que estão acrescentando nada à vida -- e que no final de tudo são mesmo fundamentais.

Como eu bem defini para uma amiga durante 2017:
"Eu me apaixono pela colheita, mas não pelo arado..."
E nessas o tempo passa -- assustadoramente mais rápido do que eu consigo tomar consciência -- e quando eu vejo o ano já foi. Eu sei que existem 05 "linhas de prioridades" de vida na qual as minhas ambições e resoluções atuais tendem a se assentar:

Mais do que grandes "conquistas", para cada área eu me daria por contente em estabelecer uma série de hábitos e rotinas que conseguissem fazer com que eu saísse dessa sensação de caos constante. Não é charmoso, não é glamouroso... Mas eu realmente me daria por muito contente em resolver o arroz com feijão básico da existência.

Como dizem por aí: "Adulting is hard!".

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Começar, não olhar para trás...

Fonte: Pixabay
Por ter começado uma série de coisas, diversas vezes, e deixado que elas morressem lenta e gradativamente, eu tenho tentado ser mais comedida em "assumir compromissos". Um sinal de sabedoria? Talvez. Mas na maior parte dos dias, parece mesmo uma certa covardia, um enrolar até que todas as estrelas estejam alinhadas -- que obviamente, nunca chega.

Estou vivendo uma boa época. Na era "mãe", isso significa que minha filha ainda requer cuidados constantes, mas não é mais tão pequena que eu não consiga ter ambições em relação a própria rotina. Consegui voltar a trabalhar horas suficientes em home-office, consegui voltar a sonhar em ter rotinas em casa, pensar em fazer atividades regulares fora... Pessoas mais otimistas diriam que "começamos a entrar no ritmo". Então não é de surpreender que eu tenha medo de colocar qualquer coisa na roda da vida que venha a mexer com esse recém e frágil equilibrio...

O detalhe é: a vida é assim! Se você não investe em voluntariamente ampliar a sua zona de conforto, a dita cuja aparece com os delicados dois pés no seu bumbum (minha filha regularmente recomenda a não utilização do termo "bunda") e faz você andar. Existe uma breve janela de oportunidade entre você fazer algo ou fazerem algo por você... E sinto que estou olhando pra ela nesse momento.

Recentemente eu identifiquei algumas "iniciativas de vida" que já passaram da hora de serem assumidas -- estou reunindo informações, me preparando mentalmente mas... No fundo acho que estou só tentando escapar da sensação do "eu não quero me frustrar de novo" -- que eu diria, ser inevitável. Por mais que eu melhore com relação as coisas, ainda existe um perfeccionismo forte que aparece por aqui, pronto para dizer que, se eu planejar as coisas corretamente, sua execução não terá contratempos... Que eu não vou me ver fazendo besteira, tendo que rever objetivos e expectativas, e tendo uma execução impecável. Não podia ser mais irreal esperar isso...

A vida é bagunçada e complexa. As coisas dificilmente saem como a gente imagina, nem tudo o que a gente gostaria se mostra realmente necessário e a função "reajustar rota" talvez seja a coisa mais útil que a gente deveria aprender a desenvolver.

É uma luta mas talvez seja a única coisa que a gente possa realmente fazer; em relação a tudo aquilo que quer na vida; seja começar e não olhar para trás. Não porque a gente planeje fracassar, ou porque queira ser descuidado com as coisas mas, porque no final das contas, aquilo que a gente quer sempre esteja seguindo em frente... Reajustando rota, recomeçando (quantas vezes forem necessárias) e aceitando o (clichê) fato de que: "amanhã melhor do que hoje, hoje melhor do que ontem..."

Sim, esse é o trabalho.
E é o que tem pra hoje.

sábado, 29 de julho de 2017

"Sempre mais do mesmo? Não era isso que você queria ouvir... "

Foto: Pixabay
A vida passa às vezes sem checagem. Dias passam. Meses Passam. Anos Passam... E se você não está muito atento naquilo que está fazendo, todo esse tempo escoa pelos dedos sem que você aproveite minimamente ou faça algo a respeito.

Senti uma fisgada dessas na última semana. Um amigo, muito bem intencionado, me contava sobre o potencial da minha área de trabalho no exterior -- Londres, mais especificamente -- dizendo que talvez fosse uma boa ideia, aproveitar o conhecimento em inglês, a necessidade no local e emigrar...
Na hora eu respondi com aqueles "É, pode ser..." que você sempre diz quando não sabe o que dizer e não quer explorar um pouco mais a questão. Mas meu cérebro no momento fazia "Peraí, como é, que que é???". Acho que o que eu sinto e decido sobre as coisas não é muito bem o que as minhas ações e comunicação fazem as pessoas entenderem, e eu não as culpo.

Eu mesma havia comentado com ele, há algum tempo, que havia feito às pazes com a minha questão profissional. Acho que com isso, e com a manutenção da minha atividade na área, a impressão que ficou foi "agora estou ok com trabalhar na área para todo sempre" -- e não foi muito bem isso que eu quis dizer. Estou em paz com a minha atuação na área, simplesmente pq as minhas pazes foram assim: quero que a área se exploda! É apenas uma maneira familiar de ganhar dinheiro, pagar as contas... Não vou investir em estar sempre "super atualizada" ou "me tornar referência" -- no máximo, como acontece de vez em quando, eu me animo a estruturar um projeto (que depois eu não tenho vontade de executar) no qual eu pretendo aproveitar esses 15 anos de experiência para ver o que eu consigo ainda tirar disso -- uma tentativa pífia de lidar com a "Sunk Cost Falacy" -- o fato de que eu já perdi muito tempo e dinheiro investido nessa área.

A ferroada provocada pela conversa, no final das contas, foi pra mim: Vc não decidiu que ia transacionar? Que ia fazer sua nova área dar jeito de uma forma ou de outra? Que iria caminhar nessa direção mesmo que em passos pequenos, e ir abandonando essa "carreira" dos últimos 15 anos? Então o que você está fazendo??

É fogo mesmo! Não estou fazendo muita coisa. Estou abordando a questão como se eu ainda tivesse 16 anos e não 36 -- estou ignorando que eu não sou uma novata no mundo do trabalho, e que tudo que passei nesses últimos 18 anos de trabalho tem que ter criado algum tipo de "inteligência de mercado", que deveria ser colocada em uso nesse momento.

Postar rabisquinho no Instagram é bom... Mas eu não posso continuar ingênua, como se isso fosse, por si só, fazer brotar algum resultado. Não dá pra forçar a mão do destino, mas não dá pra ficar sentado nas laterais esperando alguém chamar pro jogo... Não vão chamar. No máximo, vai acontecer isso de sexta-feira: as pessoas assumirem que você está em paz com esse trabalho "sereno e seguro", quando você também, já cansou de tudo isso.

Créditos do Título: 
"Mais do Mesmo", Legião Urbana.
https://youtu.be/rKC2FD046_Y